Filha,feminina,escritora,mulher,amiga, divorciada, atriz, professora de teatro, ariana, curiosa e abusada. Adepta à tristezas e depressões. Gente sempre muito feliz é chato e nada humano.
Tenho como referência artística um brasileiro chamado Vik Muniz. Ele é um representante da arte contemporânea porque ele fez o que ninguém faz. A obra de arte dele é realmente cheia de camadas. Em o Lixo Extraordinário, fui nocauteada pelo desprendimento e disponibilidade desse artista tão conceituado trabalhar dentro de um lixão. Fazer da pobreza e escassez uma arte. Ele é minha grande referência de hoje. Fazer arte com seres humanos comuns, pobres e lindos.
Sei o que é ser pobre, porque já fui rica. Tenho essa referência, pois que nasce pobre, não poderia fazer esse tipo de analogia, penso eu. Já tive carro,sempre tive empregada em casa, escola particular, cartão de crédito, motorista e um futuro garantido pela frente. Quem dera. Meu pai despareceu como um pum quando eu tinha 17 anos, e eu e minha mãe tivemos de nos virar pra viver. Vendi salgados e quindim na cantina do curso pré vestibular. Entreguei quentinhas por quase um ano, e aprendi a andar de ônibus. Meu primeiro emprego era pra ganhar meio salário mínino e limpar o banheiro de uma uma imobiliária duas vezes por dia, onde haviam 8 homens sem nenhuma pontaria. Era xixi no banheiro todo. E eu era só secretária( faxineira). O cheiro era insuportável. Mas eu limpava todo dia, e deixava um brinco. Eu fazia faxina na minha casa. Eu dava banho nos meus cachorros, eu fazia as minhas unhas, eu aprendi a me virar sendo pobre. A gente aprende a viver com pouco. A gente é pobre, mas é limpinho. Tenho uma irmã adotiva que morou em várias favelas. Visitei muitas vezes, entrei em muitos barracos. E mesmo na pobreza,com sete pessoas morando no barraco, tudo era arrumadinho e limpo. Outros barracos não, eram sujos, fedidos e bagunçados. A pobreza estava na alma. A sujeira já poderia ter contaminado essa esperança em ter uma vida digna. Pensava comigo. Nesse meio tempo me converti ao evangelho. Fui evangelizar em morro e ser missionária em locais onde ninguém ia. Crianças que não sabiam quanto calçavam porque nunca ganharam um sapato. Essas crianças e esse pais também não cheiravam bem.Mas abraço e amor são de graça e foda-se o cheiro, Jesus me abraçou quando eu estava na merda também.
Troquei de emprego e fui ser demonstradora de mercado. Lavei muito chão dos banheiros e vestiários femininos. E eu era demonstradora(faxineira de novo).
Demorei pra entender qual era o meu papel na sociedade. Rica, que ficou pobre, que frequentou lugares horríveis, e muito chics, viu a discrepância social que existe, e se revoltou.O evangelho me salvou. Casei já com um emprego legal, mas perdi quando estava com três meses de casada. Tive de me mudar para um barracão. Uma casa sem acabamento, só no reboco. Uma casa bem pobre, sem box no banheiro, sem armários de cozinha,sem piso na cozinha, sem um minimo de conforto. Meu ex marido então se tornou um algoz. Tudo que eu queria do mercado era caro. Meu Toddy Light era caro, e então eu vi que nele havia avareza, um pecado complicado. E ele controlava até o meu salário de demonstradora, mesmo ganhando mais que ele. E eu era a doméstica,cuidava da casa, das roupas dele, da comida, da faxina, trabalhava fora, estudava a noite, era universitária, e mesmo assim, eu apanhei. A pobreza entra pela porta e o amor sai pela janela, e na porrada geralmente.
Continuei pobre. Voltei com o rabo entre as pernas pra casa da minha mãe. Desempregada,machucada, deprimida e divorciada.
Pobre e sozinha.
Decidi estudar artes e hoje escolhi ser professora.
Acredito na arte como potente ressocializadora.
Fui fazer meu estágio em Paciência. Lugar bem humilde. Lá eu me achei. No meio da pobreza, a rica patricinha se descobriu útil.
Prefiro trabalhos sociais, do que ser atriz da TV. Sinceramente. Não sei o que posso encontrar por aí, mas a pobreza nunca foi um empecilho pra mim, e nunca será. Quero fazer diferença na vida daqueles que aparentemente não merecem ser educados. Quero aprender com eles.Bora faxinar toda essa sujeira da falta de educação.
Mesmo que eles acreditem que não.
Encontro pessoas humildes, e pobres que não querem sair da favela. Não acreditam mais que possam ter acesso a saneamento básico e educação. Se conformaram. E encontro também pessoas da favela, que são preconceituosas com quem não é. Eu não tenho vergonha em dizer que sou pobre. Tenho o que preciso pra viver, não sou rica, sou próspera porque tenho mais do que preciso. Mas tem uma galera que tem orgulho em ser pobre, e esse orgulho é também um pecado, como seria eu, ter orgulho por ser infeliz. " Eu sou a mais infeliz do universo, tudo de ruim só acontece comigo. Tenho muito orgulho disso!" ou " Eu sou pobre, e não admito ninguém tão pobre quanto eu vir aqui na minha favela, dizer como educar as nossas crianças." "Se você veio do asfalto, nunca vai entender o que se passa na favela." Será? E será que esses lugares já não se separam mais? São os do asfalto que não frequentam a favela, ou a favela, que não quer dar espaço pro pessoal do asfalto? Seria esse nosso Apartheid social inverso?
Em sala de aula, durante meu estágio como professora, presenciei discursos, inacreditáveis. Tem pobre que tem orgulho em ser pobre, e querem permanecer pobre. Tudo bem, acho que é uma escolha. Mas será que todo mundo da favela pensa assim?Acho que não, meu professor de filosofia da faculdade era morador de rua e hoje é doutor em filosofia.
E o que é ser pobre?
Pra mim, ser pobre, é ser escasso no amor. E não se pode dar o que não tem. Nem amor, nem empatia, nem educação. Então ser pobre, é se fechar para as possibilidades de um mundo melhor, com mais oportunidades sem desistir de lutar por uma vida digna. A maioria dos pobres só reclamam. Sabe por quê? Porque foram muito abusados, explorados, enganados. Quem poderia, com toda a figura autoritária de um país dizer a eles, Yes, We can. Sim ,nós podemos. Para que eles possam ver, que nesse país, todo mundo é pobre. Que somos todos explorados e enganados, há dois mil anos, como na época de Jesus, todos pagavam muitos impostos, e não tinham nenhum retorno do estado. A nossa crise não é só moral,econômica,ela é educacional. Nunca investiram em educação nesse país de verdade. O que educa é o exemplo, e nós estamos cheios de maus exemplos na politica, na escola e na vizinhança. A pobreza de espirito é geral.
Eu fui particularmente julgada por uma pessoa, em um caso extremo das circunstâncias, porque ao entrar na casa dela, o gato, que tinha ficado sozinho por dois dias, havia feito aquela bagunça! E o cheiro do xixi do bichano impregnou tudo. Não seria fácil entrar na casa, nem ficar lá. Sou alérgica e o cheiro de xixi, ardia minhas narinas. Dei pra trás, fiquei com medo de vomitar na casa da pessoa, e ela além de arrumar a bagunça do gato, teria de limpar meu vômito. Situação constrangedora.
Eu me recompus, e resolvi ficar na casa... já tinha dormido 20 dias em BH com a minha mala, no meio dos xixis e cocos dos gatos e cachorros da casa que haviam me acolhido, o que seria um cheiro de gato pra mim? Nada né? E não foi. Passei momentos ótimos na casa da pessoa, e até carinho no gato eu fiz. Mas não foi o suficiente. Fui taxada de fresca, que fiquei com nojo da casa, porque era pessoa humilde, e eu não sei lidar com a pobreza. Perdi a amiga. Pra ela, eu errei, eu tenho um defeito de educação, ela não pode mais ser minha amiga, porque eu sou "rica e patricinha",somos de classes sociais diferentes demais e não posso conviver com ela, porque não sei lidar com pobreza, ou sujeira. Essa pessoa realmente não pode conviver comigo, pois de fato, não me conhece. Valeu enquanto durou nossa relação e aprendizagem mútua. Deus te abençoe viu?
Será que devo acreditar nisso? Teria agora se encerrado a minha carreira de professora que quer dar aula em Paciência, um lugar humilde e precário, por escolha, para não ter de lidar com filhos de pais de classe média, que sempre vão jogar na minha cara que pagam o meu salário? Não sirvo mesmo para conviver com pobres? Quem pode na verdade julgar isso? E o que é um salário de professor? Um professor brasileiro nunca será rico, ele será pobre, a escolha será: com esperança, ou sem esperança de um futuro melhor para todas as crianças? Vou preparar minha aula, limpar minha sala, cuidar dos meus alunos, sem acreditar que eles podem ser cidadãos dignos? Jamais. Sou pobre, não sou de favela, mas tenho esperança. Pois o que tem orgulhoso da pobreza morrerá nela, e ignorante, talvez uma sorte, talvez uma escolha que fizeram por ela, e ela nem sabe. Mas o humilde da pobreza poderá ser rico de amor, rico de generosidade, rico de perdão, e rico de escolhas. Eu quero essa riqueza da humildade, e acabar com o apartheid inverso. Farei a minha parte. Na riqueza ou na pobreza, estou casada com a educação.
Mais uma teoria herética observada por mim mesma. Eu sofro de compulsão da oralidade. Na barriga da minha mãe tudo era perfeito.Simbiose, existência plena e suprida. Quando eu saí, mamei no peito por 11 dias, e só. Cresci com dificuldades de comer,tomei remedio pra abrir o apetite na infância e fui uma adolescente gordinha e vegetariana. Era a minha consciência brigando com meu metabolismo. Experimentei cigarro na adolescencia e vomitei. Deve ter sido no mesmo dia que tomei meu primeiro porre alcoólico. Tomei trauma dos dois. Pra que estou falando disso tudo? Observei o quanto me faltou o peito da minha mãe. E me pergunto hoje o quanto ele ainda nos falta? Falo de uma memória corporal onde não há palavra,cheiro ou chave que nos dê acesso de novo a essa sensação.Só sensação de abraço,calor, preenchimento labial,toque da boca e saciedade tudo junto! Alguém lembra desse prazer? Eu não. Ninguém lembra de fato,mas todo mundo reconhece essa sensação do prazer que a boca nos dá. Eu o reconheço quando na minha compulsão de oralidade tento suprir, comendo,bebendo,fumando,beijando e sem vontade de parar. Me deixando levar pelos movimentos mecânicos de comer vendo TV sem ver o que estou comendo e comer mais do realmente o meu organismo necessita pra viver equilibrado. É preciso ter algo na boca. O tempo todo,quando estou ansiosa ou triste. Alegre eu me esqueço mais de querer sugar a vida pra me sentir viva. Triste,a sede de viver é maior, e a compulsão aumenta. A briga com a balança é real. Nivel MMA, lutando com toda coerência e consciência pra derrotar os lixos orgânicos que eu mesma me promovo. Mudança de hábitos e maturidade. Deixei de ser um neném faminto, carente de peito de mãe tem muitos anos. Apesar do cigarro ter o tamanho de um bico de peito, eu sou ex-fumante com muito orgulho e gratidão a Deus porque realmente é um vicio dificil de parar,mas não impossivel quando se entende que tudo ali é ruim e de mentira, mas com subtextos maravilhosos. Eu sei que o cigarro pode ser nosso melhor amigo. Comecei a fumar aos 29 anos,burra. Parei tem quase quatro anos. Queimando dinheiro e saúde porque precisava ter alguma coisa na boca. Compulsão da oralidade de cu é rolaaaaaaaa, não admito mais sofrer com isso! Hoje ainda tenho muitas compulsões, se desfazer de uma memória corporal requer consciência , força de vontade e paciência. Meu processo hoje é bebendo água e escovando os dentes pra parar de comer( usei aparelho fixo duas vezes e percebi que gosto de boca limpa dá preguiça de comer) e fazendo reeducação alimentar. Só assim eu sou capaz de cuidar de mim como adulta e amorosa mãe do meu corpo que devo ser. Porque adulta,livre pra dar beijos sem hora pra voltar pra casa, eu posso ser feliz sem me perder, ou me autodestruir. Buscando o caminho do meio. Compulsiva sim, burra jamais!
A vida é trabalho. Essa era a frase que a minha terapeuta falava quase em todas as minhas sessões. Eu com muita dificuldade em aceitar a vida , meus limites, minhas perdas e minhas dores, tudo sempre pesado. Quem sente dor, todos os dias por um ano sem parar, fica mesmo sem leveza em ver a vida. E essa já não era a primeira dor da vida. As anteriores eram na alma, nas decepções, nas relações, essa era na carne. Lá no profundo, literalmente na minha raiz. Uma raiz doente geralmente condena a árvore. Ela não cresce, não se alimenta, não dá frutos. E como trabalha? Trabalha sim. O trabalho é cuidar da raiz. Foi o que fiz por 3 anos e meio. Por 6 meses duas vezes por semana, por 3 anos, apenas uma. Nunca faltei. A dor me paralisava, eu tinha preguiça, mas ia. Quando eu chegava lá, Confessava a minha preguiça. Ela me dizia: preguiça é medo. Medo? Sim. Demorei quase os três anos para entender, que quando você aceita o fluxo da vida, não existe preguiça, quando se vê, já fez, já foi, já realizou. Você já viu uma larajeira fazer força para colocar uma laranja? Preguiça é medo. Essa frase ainda me perturba. Não sabia que era tão medrosa.Adoro uma preguiça. Na verdade, eu ainda não tinha entendido a primeira frase do post. A vida é trabalho. Dá trabalho se relacionar com mãe, pai, irmão, filho, amigo, chefe, colegas de trabalho, vizinhos, sindico, porteiro, professor, aluno, familiares no geral ( esses para mim ainda são um desafio) seja qualquer ser humano que se encontre pela frente. Dá trabalho ouvir as pessoas, abrir mão de certezas, tolerar alguém. Dá trabalho cuidar de si, ir ao médico, ao dentista, ao mercado, fazer sua comida, fazer atividade física, lavar a cabeça ( muito cabelo, muito trabalho), cortar unhas, arrumar sua casa, sua cama, suas gavetas, a geladeira, limpar as coisas,dá trabalho desapegar, não acumular tralhas. Agora o que dá mais trabalho mesmo é se conhecer. Dá trabalho se descobrir, reconhecer que tem um monte de defeito, tem um monte de comportamento padrão de registro errado, aceitar isso, e procurar o caminho pra mudança. Desfazer maus hábitos dá muito trabalho. É preciso estar presente em si, consciente para fazer diferente o que sempre se fez automaticamente. Dá trabalho amar. Dá trabalho ceder. Dá trabalho escolher. Dá trabalho ganhar. Dá trabalho perder. Dá trabalho pensar. Dá trabalho perdoar. Dá trabalho educar. Dá trabalho acreditar. Dá trabalho se aceitar. Dá trabalho se perdoar. Até fazer sexo dá trabalho. Quem não sai ofegante de uma relação sexual, não sabe o trabalho bom que está perdendo! A vida é trabalho. Mas quanto eu ganho por isso? Apenas o oxigênio.Para conseguir dinheiro, tem que arrumar outro trabalho. Da vida você ganha sorrisos, abraços, amigos, beijos, sabores, cores e flores. Como se não bastasse a vida ser trabalho, é preciso ter um trabalho. Dá trabalho descobrir qual trabalho me coloca no fluxo da vida e não me dê preguiça, porque preguiça é medo. Escrever dá trabalho, e eu me canso. Mas não tenho preguiça de fazê -lo.Tenho necessidade, então parece que não é trabalho, mas é. Tem coisas que só entendo quando escrevo. Tenho medo. Ter medo dá trabalho, esse eu não gosto.Meu medo vem do que escrevo, dá trabalho me ler.Me reconhecer por escrito. Depois de assimilar todos esses argumentos e entender que a vida é trabalho, adotei 3 lemas que carrego comigo. 1- Respeitar escolhas, reconhecer limites. 2- Devagar e sempre. 3- Um dia de cada vez. Hoje estou aprendendo a trabalhar sem muito esforço, aceitar o fluxo da vida, já que minha raiz não está mais tão danificada . Não há controle, tudo tem seu tempo. Lógico que meu trabalho maior é cuidar dela, da minha raiz, para que no tempo certo, eu árvore, dê frutos e assim os sonhos da minha vida se tornem mais possíveis. Leve, serena e mansa, a vida nunca será, não se iluda, porque a vida, é trabalho.
Amor, sentimento importante. Vital. Esquecido, perdido, mal entendido e confundido com carência, esse sentimento tem seu tempo próprio.
Mas ninguém sem importa e regar, e cuidar para que ele floresça.
Todos querem alguém urgente.
Se você não aguenta a sua própria companhia por que outro pobre coitado tem de aturar dizendo que ama. Complicado.
E nossos erros de sabotagem?
Aquele padrão maldito que vem dos calabouços da memoria infantil e desenha um caminho único pra te fazer chegar lá.
Comportamento padrão errado, e todas as pessoas se perguntam o porquê de não encontrarem a pessoa ideal.
Primeiro que isso não existe.
Segundo, se você atrai pessoas idiotas ou babacas, certamente você é um deles.
Tem várias maneiras de se sabotar em uma relação.
Ser amante.
Tudo de bom, nenhum envolvimento, só a parte boa, mas sua casa será construída na areia e ruirá.
Ser escroto.
Relacionamentos abertos ou não, não precisam de grosseria e estupidez, violência. Respeito sempre, por você mesmo e pela humanidade.
Viajantes.
Aqueles que adoram um turista. De quebra já se vê que a disponibilidade de entregar um coração pra alguém que fica há 6 horas de distância, não será fácil, mas faz parte da sabotagem, fazemos tudo pra despertar o amor...sem que este o queira.
Amores de carnaval.
Desses eu gosto, são mais honestos.
Cada coração tem seu tempo e sua forma de amar. Não fique ansioso. Todo mundo tem defeitos e a gente aprende a conviver com os dos outros, depois que aceitamos os nossos. Mas fique de olho na auto sabotagem. Tem um eu de você que te atrapalha, ele não tem culpa, existe e só precisa de observação. Um olhar amoroso já ajuda.
Maria era uma garota do mato. Quase não falava. Usava preto, muitos brincos grandes e óculos de miopia. Só abria a boca mesmo pra perguntar das coisas de Deus, e pra rir das minhas palhaçadas. Demorei muito para ser sua amiga. Ele não trocava de roupa na frente de ninguém, e também não falava nada sobre sexo ou namoro. Era inteligente, gostava de ler e estudar. Cheguei a ir em uma reunião de escola dela, mas não teve reunião, acho que não tinha água na escola. Ela , me adimirava, só porque eu era adulta, independente e divertida.
Não demorou muito, aqueles longos cabelos pretos, que pareciam de henê, ficaram loiros. Mentira, abóbora primeiro, depois conseguimos acertar o tom, porque era no meu tanque que eu via quilos de cabelo caírem porque ela cismou de ficar loira do dia pra noite, e a encarregada a fazer o serviço, era eu!
Meu marido ficava louco, na verdade, acho que ele tinha ciúmes, mas eu cuidava tão bem dele, como dela. Tanto que ele se converteu para se casar comigo. Se batizou um dia antes. Casei no civil no dia 26 de março em BH e no religioso no dia primeiro de maio de 2004 no Rio de Janeiro. Eu amava ele, um cara trabalhador, bonito, atencioso, não bebia, não fumava, não era de farra. Nos divertíamos muito juntos. Ele me amava e cuidava de mim, era tudo o que eu queria.
No dia do meu casamento, Maria estava lá, ficou ao meu lado o tempo todo para me ajudar a me arrumar. Eu saí, ela deslumbrada, foi tomar banho de banheira no hotel pela primeira vez, se sentiu Julia Roberts em Uma Linda Mulher e quase perdeu meu casamento, atrasou tudo!
Meu marido se converteu, se batizou e agora éramos uma família de Deus. Aos poucos meu marido e Maria começaram a conviver melhor, e Maria enfim morava com a avó. Pertinho da gente.
Ela também cuidava de crianças, quando a conheci, ela trabalhava de babá. E quando ela me contou que eram dois, e os dois eram especiais. Notei que aquela garota tinha um dom especial com crianças. Aceitava a vida e a delicadeza com bom gosto. Muito trabalho, sem esforço, isso é amor. Nunca convivi com um bebê, ela domina o assunto. Cuidava com esmero, e nem tinha 16 anos.
Maria ficou loira, conheceu o Rio de Janeiro, voltou a estudar e agora começava a me contar seus sonhos, suas histórias e seus medos.
Marta Rocha almocou lá em casa, e tudo parecia estar se ajeitando. Namoro aceito, estudo, bíblia e família.
Esse capítulo termina com um final feliz. Pelo menos alguns devem ser assim.
O batismo pra mim foi uma salvação literal. A frase que habitava no meu coração quando conheci Jesus, era de um coração tão amargurado que eu só pensava em " Se eu pudesse, eu morria e nascia de novo." Minha vida estava sem sentido, eu estava deprimida. Fui ao meu batismo sozinha, no dia 9 de dezembro de 1995. Era um sábado cedinho, e depois eu iria trabalhar. Minha mãe não quis, mas eu não me importava, eu acreditava que era minha chance de renascer, havia uma esperança ínfima no meu coração sofrido, agora de acreditar no amor de Jesus. Ele estava lá. Foi lindo e emocionante, o pastor que me via chorando muito me disse que eu seria uma grande obreira.
Novembro de 2003, 8 anos depois ,tinha acabado de conhecer Maria na delegacia, e na reunião de segunda, descobri que ela estava indo a igreja, e que iria se batizar no sábado seguinte. E lá estava eu, sábado cedo em uma Igreja Universal no bairro do Independência, tipo uma Paciência do Rio de Janeiro de distância. Uma comunidade simples, muito familiar. Os filhos de Deus são humildes e simples, o evangelho também. Na lateral da igreja foi montada uma piscina Tony quadrada com água até um pouco mais da metade. Era na garagem da casa. Havia umas 50 pessoas. Umas 10 pessoas se batizando e o restante membros e familiares. Estava um dia lindo, aquele céu azul de Belo Horizonte que nunca mais vi no mundo. Os hinos eram os mesmos da minha época, e eu ouvia a voz de Deus clara no meu coração. "Ela precisa de você, foi pra isso que te trouxe pra BH. Você vai discipula- lá, e lhe ensinar tudo o que você sabe sobre Mim na Minha Palavra." - Pô Jesus, eu vim pra BH pra isso? E só agora eu descubro? E eu vou dar conta de fazer isso?" . No meio da minha DR com Deus, Maria se batizou, desceu as águas e nasceu de novo. Zerada, pronta pra escrever uma nova história, e era eu que deveria lhe ajudar com a base.
Com fé e obediência, lá fui eu. Ela brilhava, estava feliz e leve. Ela não se sentia mais sozinha, mesmo sem sua mãe estar lá, como a minha também não estava no meu batismo. Mas tínhamos o maior amor que poderíamos querer, o de Deus, só o que bastava. Ele dali em diante ia estar conduzindo nossa amizade e vida de uma maneira milagrosa e inacreditável, se não estivessemos falando de fé, seria mesmo inacreditável, mas o impossível é especialidade do nosso Deus, e tudo foi tão verdade que eu estou escrevendo.
Passamos a nos encontrar semanalmente na minha casa. Ela me ajudava na faxina e no final do expediente, sentavamos na sala, e ficavamos até tarde esperando meu noivo chegar estudando bíblia, ouvindo louvores e conhecendo a Deus. Ele era sedenta. Precisava saber que amor era aquele que dizia não deixá- la tão orfã. E na mesma dor de ser órfãs, choramos juntas para sermos amadas por Deus. Oramos no jardim secreto.
E Ele não nos deixou sozinhas.
Pra selar esse renascimento, assim que casei no papel com o irmão dela, entramos em uma loja de tatuagem, e ela tatuou Jesus na perna, igual o meu, mas em Hebraico. Ela era de menor, e eu assinei como tutora sem medo de ser feliz e abusada. A tatoo ficou linda. Na verdade, uma profecia que vai se revelar nos próximos capítulos. Quase me divorciei, meu marido ficou revoltado, queria colocar emplasto sabiá na tatuagem, mas não tinha mais jeito. Estávamos unidas, para sempre, na dor, na coragem, no amor a Jesus, que não ia sair nunca mais de nós. Ele perdoou, e a tatuagem ficou.
Era final de dia de um sábado. Eu já morava em BH havia mais de um ano, estava noiva. Nesse momento estava em Contagem dentro da Leroy Merlin comprando coisas para casa, e o telefone do meu noivo toca, na hora seu rosto fica vermelho e ele altera a voz. " Maria fugiu de casa? De novo?". Maria era irmã caçula dele, tinha quinze anos e desde que a mãe deles havia morrido, ela era ovelha negra da familia. Por providência divina, uma semana antes, ele havia conversado comigo sobre ela. e sua frase final era: Maria não tem jeito!- engoli. Ele esbravejava no telefone, disse que ia resolver quando chegasse no Independencia e que Maria ia tomar uma surra!- gelei. Assim conheci a familia do meu noivo. Chegamos na casa da tia dele, a culpa do sumiço era um tal de Marta Rocha, namorado de Maria. Havia uma carta dela também. Ninguém quis saber da carta. Tios e primos queriam matar Marta Rocha. A busca começou, fomos a casa do rapaz. Ele também não estava, todos falavam tão alto e ameaçavam matar e bater que o bairro inteiro começou a se mobilizar pra achar os dois. Acharam o Marta Rocha. Um rapaz franzino, de corte de cabelo engraçado que parecia um desenho animado, assustado e suando em bicas. Como ele não dizia onde estava a Maria, levaram- no para a delegacia. A porta da delegacia já estava cheia. O bairro inteiro queria ver sangue e morte de gente inocente. Eu não dava uma palavra, queria entender porque aquela menina causava tantos problemas. Até que na porta da delegacia se ouviu: " Olha ali a Maria chegando". Era um menina bonita, com um casaco azul do Cruzeiro, calça preta, chinelos, cabelos pretos amarrados em um coque muito grande e olhos de quem passou uma vida chorando. Ela tinha ido salvar Marta Rocha que ia ser preso por ser de maior e ela de menor. Meu noivo não falava, só gritava. ele queria leva-la embora para a casa da avó de qualquer jeito, e ela chorava dizendo que pra lá não ia nem morta. Quando ele ameaçou pega -la pelos ombros e carrega - la embora eu resolvi me meter. Chamei a em um canto da porta da delegacia e me apresentei. " Sou a noiva do seu irmão". Ela só chorava, não olhou pra mim. Tentei acalma -la e perguntei a ela um coisa apenas. " Maria, você pode não acreditar, mas eu consigo tudo do seu irmão. o que você quer Maria? " - Ela olhou pra mim assustada. Eu falei com muita convicção. Olhos arregalados e chorando muito, vi que ela estava sozinha, e que ninguém a ouvia, ou no mínimo, ninguém queria ouvi-la de fato, qual seria a sua real vontade. Ela me ouviu, e respondeu:" Eu quero ir pra casa da Suzana, não quero ir pra minha avó." Não perguntei nem quem era Suzana, apenas fui conversar com meu noivo. Pelo poder da sabedoria, e palavras mansas ( milagre de Deus na minha pessoa em situações extremas), consegui acalmar meu noivo e convencê -lo a fazer o que Maria queria, já estava tarde, era melhor todo mundo se acalmar e teríamos uma conversa na segunda feira. Ele por um milagre de Deus( toda honra e glória ao Senhor) ele topou. Maria que esperava chorando, nem acreditou quando cheguei com a notícia. Pronto! Ela poderia parar de chorar, e me abraçou.Foi pra casa da moça, a delegacia se esvaziou, eu fui pra casa com meu noivo em paz. Eu, que ia começar uma família, sei que ali, naquele abraço eu ganhei uma irmã pra vida inteira. Irmã, por parte de Pai, porque mesmo na delegacia, Deus nos uniu.