sábado, 13 de fevereiro de 2016

Pobreza vem da alma, e não da favela. No asfalto também tem gente pobre. Seria esse nosso apartheid cultural?

Tenho como referência artística um brasileiro chamado Vik Muniz. Ele é um representante da arte contemporânea porque ele fez o que ninguém faz. A obra de arte dele é realmente cheia de camadas. Em o Lixo Extraordinário, fui nocauteada pelo desprendimento e disponibilidade desse artista tão conceituado trabalhar dentro de um lixão. Fazer da pobreza e escassez uma arte. Ele é minha grande referência de hoje. Fazer arte com seres humanos comuns, pobres e lindos.
Sei o que é ser pobre, porque já fui rica. Tenho essa referência, pois que nasce pobre, não poderia fazer esse tipo de analogia, penso eu. Já tive carro,sempre tive empregada em casa, escola particular, cartão de crédito, motorista e um futuro garantido pela frente. Quem dera. Meu pai despareceu como um pum quando eu tinha 17 anos, e eu  e minha mãe tivemos de nos virar pra viver. Vendi salgados e quindim na cantina do curso pré vestibular. Entreguei quentinhas por quase um ano, e aprendi a andar de ônibus. Meu primeiro emprego era pra ganhar meio salário mínino e limpar o banheiro de uma uma imobiliária duas vezes por dia, onde haviam 8 homens sem nenhuma pontaria. Era xixi no banheiro todo. E eu era só secretária( faxineira). O cheiro era insuportável. Mas eu limpava todo dia, e deixava um brinco. Eu fazia faxina na minha casa. Eu dava banho nos meus cachorros, eu fazia as minhas unhas, eu aprendi a me virar sendo pobre. A gente aprende a viver com pouco. A gente é pobre, mas é limpinho. Tenho uma irmã adotiva que morou em várias favelas. Visitei muitas vezes, entrei em muitos barracos. E mesmo na pobreza,com sete pessoas morando no barraco, tudo era arrumadinho e limpo. Outros barracos não, eram sujos, fedidos e bagunçados. A pobreza estava na alma. A sujeira já poderia ter contaminado essa esperança em ter uma vida digna. Pensava comigo. Nesse meio tempo me converti ao evangelho. Fui evangelizar em morro e ser missionária em locais onde ninguém ia. Crianças que não sabiam quanto calçavam porque nunca ganharam um sapato. Essas crianças e esse pais também não cheiravam bem.Mas abraço e amor são de graça e foda-se o cheiro, Jesus me abraçou quando eu estava na merda também.
Troquei de emprego e fui ser demonstradora de mercado. Lavei muito chão dos banheiros e vestiários femininos. E eu era demonstradora(faxineira de novo).
Demorei pra entender qual era o meu papel na sociedade. Rica, que ficou pobre, que frequentou lugares horríveis, e muito chics, viu a discrepância social que existe, e se revoltou.O evangelho me salvou. Casei já com um emprego legal, mas perdi quando estava com três meses de casada. Tive de me mudar para um barracão. Uma casa sem acabamento, só no reboco. Uma casa bem pobre, sem box no banheiro, sem armários de cozinha,sem piso na cozinha, sem um minimo de conforto. Meu ex marido então se tornou um algoz. Tudo que eu queria do mercado era caro. Meu Toddy Light era caro, e então eu vi que nele havia avareza, um pecado complicado.  E ele controlava até o meu salário de demonstradora, mesmo ganhando mais que ele. E eu era a doméstica,cuidava da casa, das roupas dele, da comida, da faxina, trabalhava fora, estudava a noite, era universitária, e mesmo assim, eu apanhei. A pobreza entra pela porta e o amor sai pela janela, e na porrada geralmente.
Continuei pobre. Voltei com o rabo entre as pernas pra casa da minha mãe. Desempregada,machucada, deprimida e divorciada.
Pobre e sozinha.
Decidi estudar artes e hoje escolhi ser professora.
Acredito na arte como potente ressocializadora.
Fui fazer meu estágio em Paciência. Lugar bem humilde. Lá eu me achei. No meio da pobreza, a rica patricinha se descobriu útil.
Prefiro trabalhos sociais, do que ser atriz da TV. Sinceramente. Não sei o que posso encontrar por aí, mas a pobreza nunca foi um empecilho pra mim, e nunca será. Quero fazer diferença na vida daqueles que aparentemente não merecem ser educados. Quero aprender com eles.Bora faxinar toda essa sujeira da falta de educação.
Mesmo que eles acreditem que não.
Encontro pessoas humildes, e pobres que não querem sair da favela. Não acreditam mais que possam ter acesso a saneamento básico e educação. Se conformaram. E encontro também pessoas da favela, que são preconceituosas com quem não é. Eu não tenho vergonha em dizer que sou pobre. Tenho o que preciso pra viver, não sou rica, sou próspera porque tenho mais do que preciso. Mas tem uma galera que tem orgulho em ser pobre, e esse orgulho é também um pecado, como seria eu, ter orgulho por ser infeliz. " Eu sou a mais infeliz do universo, tudo de ruim só acontece comigo. Tenho muito orgulho disso!" ou  " Eu sou pobre, e não admito ninguém tão pobre quanto eu vir aqui na minha favela, dizer como educar as nossas crianças." "Se você veio do asfalto, nunca vai entender o que se passa na favela." Será? E será que esses lugares já não se separam mais? São os do asfalto que não frequentam a favela, ou a favela, que não quer dar espaço pro pessoal do asfalto? Seria esse nosso Apartheid social inverso?
Em sala de aula, durante meu estágio como professora, presenciei discursos, inacreditáveis. Tem pobre que tem orgulho em ser pobre, e querem permanecer pobre. Tudo bem, acho que é uma escolha. Mas será que todo mundo da favela pensa assim?Acho que não, meu professor de filosofia da faculdade era morador de rua e hoje é doutor em filosofia.
E o que é ser pobre?
Pra mim, ser pobre, é ser escasso no amor. E não se pode dar o que não tem. Nem amor, nem empatia, nem educação. Então ser pobre, é se fechar para as possibilidades de um mundo melhor, com mais oportunidades sem desistir de lutar por uma vida digna. A maioria dos pobres só reclamam. Sabe por quê? Porque foram muito abusados, explorados, enganados. Quem poderia, com toda a figura autoritária de um país dizer a eles, Yes, We can. Sim ,nós podemos. Para que eles possam ver, que nesse país, todo mundo é pobre. Que somos todos explorados e enganados, há dois mil anos, como na época de Jesus, todos pagavam muitos impostos, e não tinham nenhum retorno do estado. A nossa crise não é só moral,econômica,ela é educacional. Nunca investiram em educação nesse país de verdade. O que educa é o exemplo, e nós estamos cheios de maus exemplos na politica, na escola e na vizinhança. A pobreza de espirito é geral.

Eu fui particularmente julgada por uma pessoa, em um caso extremo das circunstâncias, porque ao entrar na casa dela, o gato, que tinha ficado sozinho por dois dias, havia feito aquela bagunça! E o cheiro do xixi do bichano impregnou tudo. Não seria fácil entrar na casa, nem ficar lá. Sou alérgica e o cheiro de xixi, ardia minhas narinas. Dei pra trás, fiquei com medo de vomitar na casa da pessoa, e ela além de arrumar a bagunça do gato, teria de limpar meu vômito. Situação constrangedora. 
Eu me recompus, e resolvi ficar na casa... já tinha dormido 20 dias em BH com a minha mala, no meio dos xixis e cocos dos gatos e cachorros da casa que haviam me acolhido, o que seria um cheiro de gato pra mim? Nada né? E não foi. Passei momentos ótimos na casa da pessoa, e até carinho no gato eu fiz. Mas não foi o suficiente. Fui taxada de fresca, que fiquei com nojo da casa, porque era pessoa humilde, e eu não sei lidar com a pobreza. Perdi a amiga. Pra ela, eu errei, eu tenho um defeito de educação, ela não pode mais ser minha amiga, porque eu sou "rica e patricinha",somos de classes sociais diferentes demais e não posso conviver com ela, porque não sei lidar com pobreza, ou sujeira. Essa pessoa realmente não pode conviver comigo, pois de fato, não me conhece. Valeu enquanto durou nossa relação e aprendizagem mútua. Deus te abençoe viu?  

Será que devo acreditar nisso? Teria agora se encerrado a minha carreira de professora que quer dar aula em Paciência, um lugar humilde e precário, por escolha, para não ter de lidar com filhos de pais de classe média, que sempre vão jogar na minha cara que pagam o meu salário? Não sirvo mesmo para conviver com pobres? Quem pode na verdade julgar isso? E o que é um salário de professor? Um professor brasileiro nunca será rico, ele será pobre, a escolha será: com esperança, ou sem esperança de um futuro melhor para todas as crianças? Vou preparar minha aula, limpar minha sala, cuidar dos meus alunos, sem acreditar que eles podem ser cidadãos dignos? Jamais. Sou pobre, não sou de favela, mas tenho esperança. Pois o que tem orgulhoso da pobreza morrerá nela, e ignorante, talvez uma sorte, talvez uma escolha que fizeram por ela, e ela nem sabe. Mas o humilde da pobreza poderá ser rico de amor, rico de generosidade, rico de perdão, e rico de escolhas. Eu quero essa riqueza da humildade, e acabar com o apartheid inverso. Farei a minha parte. Na riqueza ou na pobreza, estou casada com a educação.



Um comentário:

Leninha disse...

Muito legal!!!só que pra mim,recordar é sofrer duas vezes!!mas de vez em quando é bom lembrarmos de quem somos!!!... Parabéns!!!