terça-feira, 3 de julho de 2012

Workshop Parvathy Baul - Está tudo no lugar.

Expectativa é uma coisa que impreguina e costumo dizer que expectativa é uma esperança que quica, ela é fora do ritmo, ela acelera a vida e nunca é boa. Pra mim, é a semente da ansiedade. Cheguei na Itália e em uma semana a casa caiu. Esse negócio de comer macarrão o tempo todo me dá uma fome deseperada! Um calor de 35°, e aqui ninguém coloca água pra gelar, é da bica e natural. Assistindo Ave Maria com Julia Valey, no teatro percebi que não existe ar condicionado. Festival cheio, gente saindo pela janela, e um micro ventilador. Quero voltar pra minha casa agoraaa!! Sem me sentir saciada, sem conseguir dormir direito porque é muita gente no quarto e com esse calor, quem é feliz? Fui pega chorando que nem criança na cozinha, suplicando aos céus que alguém me tirasse daqui. Os olhos de Maysa ( Ilária) me viram. A organizadora do evento se compadeceu de mim. Supliquei ajuda pra ir embora e ela docemente me pediu pra fazer pelo menos o workshop da indiana Parvathy. Uma hora depois eu estava na sala ouvindo uma mulher de um metro e meio talvez, com um cabelo desse tamanho também, todo de dreads. Ela tem cara de menina, mas é uma mestra. Um sorriso sincero, uma calma indiana, cantava e tocava uma música da alma. O processo é aprender essa música e escrever a sua própria história, depois editá-la em um poema e musicá-la. O primeiro exercicio que vi foi de respiração. O segredo de um corpo que canta e vibra, um ser que ecoa onde passa. Nunca tinha visto essa forma de respiração,onde se faz barulho quando inspira, e expira, e no final perceber que ela esfria o corpo. Saí do lugar de desespero e voltei pro que não sei, é, faço teatro porque até não sei o que é, no dia que conseguir defini-lo, acho que Jesus me leva. Foram só 30 minutos de alegria, a fome começou a me deixar com dor de cabeça e minha fada madrinha Ilária me levou pra comer carne, enfim feliz.
Como eu esperei tanta coisa daqui ? Não seria muito mais fácil não esperar nada, pra que o que viesse fosse lucro? Aqui faltou luz, faltou água. Imaginou? Verão europeu, em um vilarejo isolado, ao lado de um mosteiro, estamos em um castelo de 1600...sem ar condicionado, sem carne. Segundo dia de festival, e o inferno era a Itália. Barba foi embora, e não deu workshop pra mortais, ele fez Ave Maria in progress com Julia, e nós assistimos o resultado do processo. Só isso. O espetáculo é surpreendente, diferente de tudo que já vi. Chorei verde ( estava de rímel colorido, na tentativa de colorir minhas expectativas, que eram negras.) Ainda bem que meu coração é maior que minha mente, eu senti na alma esse teatro, e comecei a desistir de ir embora. Sem mais expectativas, uma outra solução chegou. Fui agraciada com um quartinho na masmorra do castelo. Talvez o mais quente, porém com a vista mais bonita de Fara in Sabina. Comecei então a dormir melhor. Metade das pessoas que estavam aqui foram embora com o Barba, e a vida começou a melhorar. O segundo dia com Parvathy foi intenso. Ela nos ensinou e girar no próprio eixo, tal qual aquela brincadeira de criança, que toda mãe briga quando vê o filho fazer, porque fica doidão da tontura. Vibrei!! Esse era meu momento, ia ficar tonta igual quando pequena e isso é teatro indiano!! O exercicio parece simples, mas é uma fonte de energia e prazer. No terceiro dia começamos a entender mais a tal música dela e começamos a cantar as nossas. Eu apenas li o meu poema, e chorei, chorei muito. Eu sou como uma figueira plantada no meio de uma vinha...e que Deus me dê a música, porque a letra está pronta. Depois do almoço, fizemos o treino do passo do pé, como uma dança indiana. Gabriel ficou no foco do problema, o corpo ocidental que tem muita dificuldade de mover, mas conter a energia na quinosfera. Quanta coisa nova, e quantas fichas caindo. Quantas coisas deixaram de ser importantes, e outras tornaram a ser. E tudo em uma semana!! Eu pensando que iria gravar videos suada...só consigo me perceber viva, e por enquanto está de bom tamanho. Não vou, não posso e não quero mais dar vazão a expectativa, essa maldita sempre estraga tudo. Chega, agora eu respiro pra esfriar e giro no eixo, assim minha expectativa deixa de quicar e tudo parece voltar ao lugar. Sem frustrações, ou desencantos. Está tudo no lugar.

Nenhum comentário: