terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Maria do Mato

Maria era uma garota do mato. Quase não falava. Usava preto, muitos brincos grandes e óculos de miopia. Só abria a boca mesmo pra perguntar das coisas de Deus, e pra rir das minhas palhaçadas. Demorei muito para ser sua amiga. Ele não trocava de roupa na frente de ninguém,  e também não falava nada sobre sexo ou namoro. Era inteligente, gostava de ler e estudar. Cheguei a ir em uma reunião de escola dela, mas não teve reunião,  acho que não tinha água na escola. Ela , me adimirava, só porque eu era adulta, independente e divertida.

Não demorou muito, aqueles longos cabelos pretos, que pareciam de henê, ficaram loiros. Mentira, abóbora primeiro, depois conseguimos acertar o tom, porque era no meu tanque que eu via quilos de cabelo caírem porque ela cismou de ficar loira do dia pra noite, e a encarregada a fazer o serviço,  era eu! 

Meu marido ficava louco, na verdade, acho que ele tinha ciúmes,  mas eu cuidava tão bem dele, como dela. Tanto que ele se converteu para se casar comigo. Se batizou um dia antes. Casei no civil no dia 26 de março em BH e no religioso no dia primeiro de maio de 2004 no Rio de Janeiro.  Eu amava ele,  um cara trabalhador,  bonito, atencioso,  não bebia, não fumava, não era de farra. Nos divertíamos muito juntos. Ele me amava e cuidava de mim, era tudo o que eu queria.
No dia do meu casamento, Maria estava lá, ficou ao meu lado o tempo todo para me ajudar a me arrumar. Eu saí,  ela deslumbrada, foi tomar banho de banheira no hotel pela primeira vez, se sentiu Julia Roberts em Uma Linda Mulher e quase perdeu meu casamento, atrasou tudo!
Meu marido se converteu, se batizou e agora éramos uma família de Deus. Aos poucos meu marido e Maria começaram a conviver melhor, e Maria enfim morava com a avó. Pertinho da gente.

Ela também cuidava de crianças, quando a conheci, ela trabalhava de babá.  E quando ela me contou que eram dois, e os dois eram especiais. Notei que aquela garota tinha um dom especial com crianças.  Aceitava a vida e a delicadeza com bom gosto. Muito trabalho, sem esforço,  isso é amor. Nunca convivi com um bebê,  ela domina o assunto. Cuidava com esmero, e nem tinha 16 anos.

Maria ficou loira, conheceu o Rio de Janeiro, voltou a estudar e agora começava a me contar seus sonhos, suas histórias e seus medos.
Marta Rocha almocou lá em casa,  e tudo parecia estar se ajeitando. Namoro aceito, estudo, bíblia e família.
Esse capítulo termina com um final feliz. Pelo menos alguns devem ser assim.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Capitulo 2 - O Batismo.

O batismo pra mim foi uma salvação literal. A frase que habitava no meu coração quando conheci Jesus, era de um coração tão amargurado que eu só pensava em " Se eu pudesse, eu morria e nascia de novo." Minha vida estava sem sentido, eu estava deprimida. Fui ao meu batismo sozinha, no dia 9 de dezembro de 1995. Era um sábado cedinho, e depois eu iria trabalhar. Minha mãe não quis, mas eu não me importava, eu acreditava que era minha chance de renascer, havia uma esperança ínfima no meu coração sofrido, agora de acreditar no amor de Jesus. Ele estava lá. Foi lindo e emocionante, o pastor que me via chorando muito me disse que eu seria uma grande obreira.

Novembro de 2003, 8 anos depois ,tinha acabado de conhecer Maria na delegacia, e na reunião de segunda, descobri que ela estava indo a igreja, e que iria se batizar no sábado seguinte. E lá estava eu, sábado cedo em uma Igreja Universal no bairro do Independência,  tipo uma Paciência do Rio de Janeiro de distância.  Uma comunidade simples, muito familiar. Os filhos de Deus são humildes e simples, o evangelho também.  Na lateral da igreja foi montada uma piscina Tony quadrada com água até um pouco mais da metade. Era na garagem da casa. Havia umas 50 pessoas. Umas 10 pessoas se batizando e o restante membros e familiares. Estava um dia lindo, aquele céu azul de Belo Horizonte que nunca mais vi no mundo. Os hinos eram os mesmos da minha época, e eu ouvia a voz de Deus clara no meu coração.  "Ela precisa de você,  foi pra isso que te trouxe pra BH. Você vai discipula- lá,  e lhe ensinar tudo o que você sabe sobre Mim na Minha Palavra." - Pô Jesus, eu vim pra BH pra isso? E só agora eu descubro? E eu vou dar conta de fazer isso?" . No meio da minha DR com Deus, Maria se batizou, desceu as águas e nasceu de novo. Zerada, pronta pra escrever uma nova história,  e era eu que deveria lhe ajudar com a base.

Com fé e obediência,  lá fui eu. Ela brilhava, estava feliz e leve. Ela não se sentia mais sozinha, mesmo sem sua mãe estar lá,  como a minha também não estava no meu batismo. Mas tínhamos o maior amor que poderíamos querer, o de Deus, só o que  bastava. Ele dali em diante ia estar conduzindo nossa amizade e vida de uma maneira milagrosa e inacreditável,  se não estivessemos falando de fé,  seria mesmo inacreditável,  mas o impossível é especialidade do nosso Deus, e tudo foi tão verdade que eu estou escrevendo.
Passamos a nos encontrar semanalmente na minha casa. Ela me ajudava na faxina e no final do expediente,  sentavamos na sala, e ficavamos até tarde esperando meu noivo chegar estudando bíblia, ouvindo louvores e conhecendo a Deus. Ele era sedenta. Precisava saber que amor era aquele que dizia não deixá- la tão orfã. E na mesma dor de ser órfãs,  choramos juntas para sermos amadas por Deus. Oramos no jardim secreto.

E Ele não nos deixou sozinhas.

Pra selar esse renascimento, assim que casei no papel com o irmão dela, entramos em uma loja de tatuagem, e ela tatuou Jesus na perna, igual o meu, mas em Hebraico. Ela era de menor, e eu assinei como tutora sem medo de ser feliz e abusada. A tatoo ficou linda. Na verdade, uma profecia que vai se revelar nos próximos capítulos.  Quase me divorciei, meu marido ficou revoltado, queria colocar emplasto sabiá na tatuagem, mas não tinha mais jeito. Estávamos unidas, para sempre, na dor, na coragem, no amor a Jesus,  que não ia sair nunca mais de nós. Ele perdoou, e a tatuagem ficou.

Deus é Fiel. E como era lindo aquele jardim.

Capitulo 1 - Delegacia


Era final de dia de um sábado. Eu já morava em BH havia mais de um ano, estava noiva. Nesse momento estava em Contagem dentro da Leroy Merlin comprando coisas para casa, e  o telefone do meu noivo toca, na hora seu rosto fica vermelho e ele altera a voz. " Maria fugiu de casa? De novo?".

Maria era irmã caçula dele, tinha quinze anos e desde que a mãe deles havia morrido, ela era ovelha negra da familia. Por providência divina, uma semana antes, ele havia conversado comigo sobre ela. e sua frase final era: Maria não tem jeito!- engoli.

Ele esbravejava no telefone, disse que ia resolver quando chegasse no Independencia e que Maria ia tomar uma surra!- gelei.

Assim conheci  a familia do meu noivo. Chegamos na casa da tia dele, a culpa do sumiço era um tal de Marta Rocha, namorado de Maria. Havia uma carta dela também. Ninguém quis saber da carta. Tios e primos queriam matar Marta Rocha. A busca começou, fomos a casa do rapaz. Ele também não estava, todos falavam tão alto e ameaçavam matar e bater que o bairro inteiro começou a se mobilizar pra achar os dois. Acharam o Marta Rocha. Um rapaz franzino, de corte de cabelo engraçado que parecia um desenho animado, assustado e suando em bicas. Como ele não dizia onde estava a Maria, levaram- no para a delegacia. A porta da delegacia já estava cheia. O bairro inteiro queria ver sangue e morte de gente inocente.

Eu não dava uma palavra, queria entender porque aquela menina causava tantos problemas. Até que na porta da delegacia  se ouviu: " Olha ali a Maria chegando". Era um menina bonita, com um casaco azul do Cruzeiro, calça preta, chinelos, cabelos pretos amarrados em um coque muito grande e olhos de quem passou uma vida chorando. Ela tinha  ido salvar Marta Rocha que ia ser preso por ser de maior e ela de menor. Meu noivo não falava, só gritava. ele queria leva-la embora para a casa da avó de qualquer jeito, e ela chorava dizendo que pra lá não ia nem morta. Quando ele ameaçou pega -la pelos ombros e carrega - la embora eu resolvi me meter. Chamei a em um canto da porta da delegacia e me apresentei. " Sou a noiva do seu irmão". Ela só chorava, não olhou pra mim. Tentei acalma -la e perguntei a ela um coisa apenas. " Maria, você pode não acreditar, mas eu consigo tudo do seu irmão. o que você quer Maria? " - Ela olhou pra mim assustada. Eu falei com muita convicção. Olhos arregalados e chorando muito, vi que ela estava sozinha, e que ninguém a ouvia, ou no mínimo, ninguém queria ouvi-la de fato, qual seria a  sua real vontade. Ela me ouviu, e respondeu:" Eu quero ir pra casa da Suzana, não quero ir pra minha avó." Não perguntei nem quem era Suzana, apenas fui conversar com meu noivo. Pelo poder da sabedoria, e palavras mansas ( milagre de Deus na minha pessoa em situações extremas), consegui acalmar meu noivo e convencê -lo a fazer o que Maria queria, já estava tarde, era melhor todo mundo se acalmar  e teríamos uma conversa na segunda feira. Ele por um milagre de Deus( toda honra e glória ao Senhor) ele topou. Maria que esperava chorando, nem acreditou quando cheguei com a notícia. Pronto! Ela poderia parar de chorar, e me abraçou.Foi pra casa da moça, a delegacia se esvaziou, eu fui pra casa com meu noivo em paz.

Eu, que ia começar uma família, sei que ali, naquele abraço eu ganhei uma irmã pra vida inteira. Irmã, por parte de Pai, porque mesmo na delegacia, Deus nos uniu.



domingo, 6 de julho de 2014

Briga de Familia

Quem defende que familia é de Deus não sabe muito bem o que está dizendo. É nesse ambiente de familia que construimos nossos maiores traumas e afetos profundos. E não podemos esquecer que nas reuniões em família é que acontece o pior momento para bullying, as crianças são massacradas na frente dos seus primos e tios, e todo mundo acha graça. Bullying na escola é diferente, saiu de lá, você vai pra casa, e tem bullying ali também. Mas isso é velado. Ninguém fala, familia é sagrada.
Não me dou muito bem com a minha familia. Tenho crises de angústia em festinhas de crianças. Deve ser porque sou a única divorciada sem filhos. Como olhar pra todos os pais dessas criancas pra tentar socializar sem se sentir a alienada, olhada de cima abaixo, principalmente pelas esposas, porque não sabe cantar uma música de Galinha Pintadinha,ou do XSPB ? Não sei, e não sou obrigada. Sou linda e magra, isso basta. Me basta, e basta pra ser persona no grata no ambiente.
Hoje foi aniversário de um aninho da filha de um primo. Fui levar a minha mãe na tentativa de estar nesse lugar sem problemas. Não consegui. Tive crise de angústia. Quando era criança meus familiares sempre me trataram como uma mimada e hoje me olham como a encalhada. É o mesmo bullying, na mesma família. Mas agora sou adulta, não preciso ficar ali. Já posso me defender.
Todas aquelas lembrancinhas da Minnie, e todos aqueles enfeites rosa de bolinhas, foi me deixando sem ar. Uma casa de festas maravilhosa,  com comida boa, uma mega estrutura,  muitos garçons e muitas crianças. Depois de uns 10 anos que não via minha tia, irmã da minha mãe,  a única tia de verdade,  e a única irmã que ela tem, foi com ela que tive a minha crise de choro na porta da casa de festas, querendo ir embora. Já tinha feito minha mãe chorar, minha angústia estava do tamanho daquela casa de festas. Eu tentei, eu juro que eu tentei. Mas não deu. Não deu pra posar de prima adulta e resolvida. Confessei pra minha tia todas as minhas reclamações,  e ela ali, no afeto mais puro e verdadeiro, olhando dentro dos meus olhos, me disse que também não gostaria de estar ali, que entendia o tamanho da minha dificuldade,  mas ela estava por causa da minha mãe,  dos filhos dela e dos netos. Ela estava tentando tanto quanto eu. Foi nesse momento me senti afagada em família. O mais verdadeiro olhar familiar segurava nas minhas mãos e me ouvia. Entendi tudo. Quando eu era criança,  nossas festas em família sempre terminavam em briga e bebedeira. Não me lembro quem arrumava as brigas, mas essa minha tia estava em todas. Na mesma hora vem a frase que minha mãe tinha acabado de me falar. " Se eu estivesse no seu lugar, ou eu ia embora, ou eu bebia. Estou bebendo". A culpa das brigas em família é a bebida. Eu, como geralmente não bebo, resolvi ir embora.  Agora escrevendo entendi quase todas as brigas e festinhas. Entendi minha angústia,  um resíduo de comportamento padrão que até então eu não sabia que tinha. Agora posso saber lidar melhor. Minhas memórias,  me afetaram, me tiraram de lá. Mas não sai de casa em vão.
Achei que tinha perdido meu domingo, mas no fundo eu ganhei.
Eu tentei, eu insisti porque na porta quando começou o problema de estacionamento,  eu já queria deixar minha mãe e busca-lá no final. Mas respirei e pedi ajuda a Deus, e consegui parar meu carro e ir pra festinha.
Lá eu ouvi meu primo adulto, bem sucedido,  com um sorrisão tão escancarado e satisfeito,  contando de sua recente caminhada e conquista no trabalho, uma filha linda e fofa, uma festa perfeita e a frase emblemática: " Não pode desistir! Insiste! "
Vi meu outro primo tirar da mochila um prato de criança pra ir se servir no buffet o almoço do filho menor dos três,  que eu nenhum conhecia.Conheci hoje!
Meus primos são homens maravilhosos, e bons pais,  tenho orgulho deles. Os demais primos ainda não haviam chegado. Os brindes da Minnie já estavam começando a falar comigo, eu não estava bem, o ar não chegava no fim do pulmão. Precisava sair dali. Briguei com minha mãe, e como um furacão,  fui embora.
Lá na portaria eu tive o contato mais verdadeiro e esclarecedor da minha história familiar. Minha tia me acolheu, me entendeu, me falou verdades, me olhou nos olhos, me abraçou,  eu me reconheci naquele olhar, eu me vi nela e ela me deixou ir. 
Agora fico me perguntando,  que toda família é realmente assim? Tem suas brigas, suas ralhas, suas diferenças,  mas uma cumplicidade que acolhe. Desde que minha mãe ficou doente,  eu tive de rever minha postura diante da minha família. Apesar de ser fechada pra eles, quando precisei fui sim, acolhida. Expor minhas fraquezas pra eles é um processo libertador. Dói muito. Mas a vida dói. Eu não tenho pra onde correr.
Só fui embora porque minha mãe estaria com a família, minha tia cuidaria dela, e eu poderia sair dessa cobrança social que me persegue é difícil lidar. Não ter filhos. Ainda tenho tempo pra fazer essa escolha, mas o mundo grita que não. Que talvez eu nem tenha essa escolha, que optando por não tê- los, serei excluída do "clube  das famílias felizes e mulheres realizadas" e condenada a ser infeliz e insatisfeita, e olhada de lado pro resto da minha vida. Condenada ao limbo das solteironas que acordam a hora que querem, que podem ir a baladas, festas, viajar, estudar, investir na carreira, sair com o homem que eu quiser, ou não.  Solteironas tem escolhas que mães não tem. Cada uma na sua. Mas como eu sou sempre a primeira a ser olhada de cima abaixo por essas mulheres, isso me afeta. Eu também as olho de cima pra baixo, primeiro porque sou alta, depois porque eu me cuido e geralmente os pescoços dos maridos vem em minha direção e aí que fode a porra toda. Não quero pegar marido de ninguém. Quero paz. Cuidem de seus lindos filhos que vou cuidar da minha vida.
Sociedade patriarcal, mulheres machistas. Somos desunidas desde sempre, uma loucura isso. Por isso me esforço pra ter um relacionamento saudável com minha mãe,  e depois de hoje, também com minha tia. Talvez as únicas mulheres que me importam relacionar no profundo e agora. Obrigada Tia Lúcia.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A parte que me cabe.

Qual é a parte que me cabe em um jogo de relações?
Me dou por inteira, pela metade, espero pedir, ofereço a mão?
Monto uma boa estratégia,  ou me deixo seguir pela emoção ?
E os meus sentimentos?  Cabem nas ações? Meu sentimentos cabem no esperar?
Tem regras.
Se não tiver regras, não é jogo.
Me sinto uma péssima amiga. Não me sinto capaz de manter encontros com uma turma de gente. Não saio de casa e não vejo pessoas que amo encontrar. Por isso sou péssima amiga, repito, não sei qual a parte que me cabe em um jogo de relações.
Ser amigo não é ser livre de obrigações?  Nem sempre. Amigos devem ser leais. Porém,  só os amigos traem.
Entendo a importância dos encontros.  Dois corpos humanos juntos e desconhecidos em um elevador, já promove um afeto. Ambos afetados pelo desconhecido. Incomodados,  percebidos. Não são amigos, não há assunto, há só suspiro.
Dois corpos humanos amigos promovem muito mais afetos. São muito mais afetados uns pelos outros. Dois corpos humanos amigos de verdade,  aqueles poucos. Que permitem se afetar no profundo,  pela alegria, contato visual, dor, paixão e vida do outro. Inevitável o afeto, afetar e  ser afetado, se emocionar, e ser emocionado, consolar e ser consolado, ajudar e ser ajudado. No fim, achar tudo engraçado.
Meus encontros são muito intensos. Acho que por isso evito. Não sei a parte que me cabe, lá vou eu inteira em cada encontro: pessoal, impessoal, canino, ou espiritual, em todas eu me encontro. Encontro  me com o outro. Me vejo, me revejo. Sou tão legal, muito mais legal do que comigo. Me observo, me afeto, sou afetada, me estresso. Me meço, me comparo, me empresto. Dali vou adiante, no fim do dia, não me lembro mais quem sou. Me perdi por ai. Carimbei me no outro ali.
Mas então qual é o tamanho?  Não posso me isolar, e me perco ao me encontrar! O melhor é dosar. Menos afetos, menos dores, menos desamores.
Devagar. Não sei qual é a minha parte, mas entendo que preciso ir devagar. Nas relações,  como no jogo, joga-se junto, mas é um lance de cada vez.
Devagar para não desistir,  porque sozinho não há jogo. É melhor perder, errar, ter afeto, afetar, chorar, esperar, esperar, esperar, perdoar, arriscar , mas continuar no jogo, do que ficar sozinho. Não há espetáculo quando há apenas um homem e um banquinho.
É preciso platéia,  é preciso torcida, é preciso adversário,  é preciso regras e juiz, senão,  não há jogo, não há relações. Nada de afeto.
O mundo inteiro anda carente porque não se permitem aos afetos. Se secam, se fecham, se machucam, se espetam. Falta compaixão,  falta paciência,  falta generosidade.
É essa a parte que me cabe, ser generosa. Comigo, com o outro, com os afetos, com os limites, com as escolhas, com os erros. Achar tudo engraçado e ficar no jogo. Perder e ganhar nunca importou, o importante é aprender a jogar.
Existem encontros que são jogos únicos. Tem gente que te ensina a jogar com a generosidade,  tem gente que não sabe jogar. Isso é importante,  saber com quem se joga, se vale a pena algum lance. Porque se você quer jogar vôlei,  a pessoa basquete,  cada um tem a sua  bola, sua quadra, suas regras,.alguém tem de ceder, ou joga sozinho e a parede. Que não será a mesma coisa. Nunca. Larga uma bola e uma vontade para que haja algum jogo, senão,  não há relação, não há  o encontro. Mesmo que você não seja tão bom naquele jogo, tem medo de perder, aproveita para aprender. Ceder é aprender, é dar a vez pro outro, é se deixar afetar por ele, é esperar o lance. É estar vivo dentro do jogo! É a vida né?  RING.
Aos meus bons amigos, obrigada pelos encontros, me esforço em mantê- los,  e vou melhorar, porque preciso e quero ser afetada por pessoas que eu amo, e me sinto aceita, abraçada,  recebida, recebo afeto, que tanto preciso. Amo vocês.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

A lição da Espera.

Uma coisa que o ser humano precisa aprender desde que sai do útero materno, onde ele era simbiotico, perfeito e um só com a mãe, quentinho, escurinho, com comidinha o tempo todo...é esperar. A partir do momento que rompeu aquelas bacias, colocou o cabeção pra fora, queimou no oxigênio que entra pelo nariz e inaugura o pulmão de uma só vez chorou e...agora vai ter de esperar. Esperar, acho que depois de amar, é o que aprendemos desde sempre nessa vida. Se não aprendemos ainda, então estamos penando. Tudo tem hora certa. Há tempo pra todas as coisas já dizia Salomão.
Lá no versiculo bíblico são 24 tempos. Tudo organizado, mas quem consegue? Esperar de boa?
Difícil.Muito difícil. Fico inquieta ao lado o microondas que já é um avanço tecnológico do século XX,  que adianta meu tempo, olha que horror!

O que mais tenho visto é a dificuldade de esperar por alguém. Está impregnado no consciente das pessoas que vai chegar uma pessoa salvadora e ela mudará tudo na sua vida. Isso acontece? Acontece. O  príncipe ou a princesa existem sim, mas enquanto, eles não chegam, o que eu faço? No mínimo se tornar o par correspondente.
A sindrome da Cinderela depressiva está na maioria das mulheres. Elas carentes de abraço e atenção, vão pra cama até sem muita vontade, mas faz pelo contato humano. Pelo carinho, uma trepadinha. Umas mais descoladas e mais novinhas levam numa boa até.  Criam expectativa no outro dia, mas passa rápido, quase uma raridade, a grande massa idealiza. E o pior que eu descobri.  Homem também idealiza. Nenhum dos dois estão na verdade a fim de conhecer o outro, querem tomar posse da pessoa, com certidão de casamento com se pudesse usá -la como nota fiscal, em busca daquela sensação lá de cima,  a simbiose do amor, sem gastar tempo e estar com o outro só pela companhia, pela diversão.  Homens e mulheres se seduzem rindo... pelo carinho. Isso se conquista, se adquire em um jogo de ajuste trabalhoso. Ninguém quer ser expert nesse jogo, todo mundo espera a porra do maldito príncipe idealizado pronto, recortado da revista, scaneado e feito tamanho real  pela impressora 3D. Tudo errado.
Estar com alguém, é estar você com alguém,  nunca alguém em você,  ou você em alguém. Porque uma das Cinderelas depressivas que conheço me deu uma resposta até  bem sagaz, mas um pouco infantil. "Ah, eu sou um ser humano melhor quando estou com alguém ...!" Ah..poético...se não for quase um jogo de batatas quentes. E o sujeito joga de longe aquela batata quente de ter obrigação de fazer o outro feliz, pra que ele seja um ser humano melhor...como se ele não tivesse a obrigacao de sê-lo sozinho primeiro,  e o que chega só então acrescenta.  Senão essa merda vai desandar. Desandou. E rápido assim.Preciso de você para ser melhor ...mentira! Tudo a maldita carência, joguinhos de chantagem emocional. Isso tudo me irrita ao ponto de escrever um post.
Estar com alguém é um eterno  compartilhar de gentilezas, pois todo mundo é pra ser livre, mas resolve ficar ao seu lado pelo motivo mais louco e banal dessa vida. Acho que é muito além da sua limitada estatística boçal e insegura que guerreia na sua cabeça. Se ele ou ela chegarem, podem resolver ficar por um simples sorriso, um cheiro, um jeito, uma química invisível que compõe 70% de todo esse encontro. O resto é trabalho em manter. Muito trabalho, muita escolha, muito pouco sim, pra muito não.  Mas não é um mundo controlado, e sim compartilhado sempre que possivel, a base de gentileza.
Aos príncipes desiludidos e cinderelas depressivas muita calma, tem de esperar,por isso prestem atenção : Tudo mudou já tem um tempo, acho que só vocês que não querem ver.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A lição do Trabalho.

A vida é trabalho. Essa era a frase que a minha terapeuta falava quase em todas as minhas sessões. Eu com muita dificuldade em aceitar a vida , meus limites, minhas perdas e minhas dores, tudo sempre pesado. Quem sente dor, todos os dias por um ano sem parar, fica mesmo sem leveza em ver a vida. E essa já não era a primeira dor da vida. As anteriores eram na alma, nas decepções, nas relações, essa era na carne. Lá no profundo, literalmente na minha raiz. Uma raiz doente geralmente condena a árvore. Ela não cresce, não se alimenta, não dá frutos. E como trabalha? Trabalha sim. O trabalho é cuidar da raiz. Foi o que fiz por 3 anos e meio. Por 6 meses duas vezes por semana, por 3 anos, apenas uma. Nunca faltei. A dor me paralisava, eu tinha preguiça,  mas ia. Quando eu chegava lá,  
Confessava a minha preguiça.  Ela me dizia: preguiça é medo. Medo? Sim. Demorei quase os três anos para entender, que quando você aceita o fluxo da vida, não existe preguiça,  quando se vê,  já fez, já foi, já realizou. Você já viu uma larajeira fazer força para colocar uma laranja? Preguiça é medo. Essa frase ainda me perturba.

Não sabia que era tão medrosa.Adoro uma preguiça. 

Na verdade, eu ainda não tinha entendido a primeira frase do post. 

 A vida é trabalho.

Dá trabalho se relacionar com mãe, pai, irmão,  filho, amigo, chefe, colegas de trabalho, vizinhos, sindico, porteiro, professor, aluno, familiares no geral ( esses para mim ainda são um desafio) seja qualquer ser humano que se encontre pela frente. Dá trabalho ouvir as pessoas, abrir mão de certezas, tolerar alguém. 

Dá trabalho cuidar de si, ir ao médico,  ao dentista, ao mercado, fazer sua comida, fazer atividade física, lavar a cabeça ( muito cabelo, muito trabalho), cortar unhas, arrumar sua casa, sua cama, suas gavetas, a geladeira, limpar as coisas,dá trabalho desapegar, não acumular tralhas.

Agora o que dá mais trabalho mesmo é se conhecer. 
Dá trabalho se descobrir, reconhecer que tem um monte de defeito, tem um monte de comportamento padrão de registro errado, aceitar isso, e procurar o caminho pra mudança. Desfazer maus hábitos dá muito trabalho. É preciso estar presente em si, consciente para fazer diferente o que sempre se fez automaticamente.

Dá trabalho amar. 
Dá trabalho ceder.
Dá trabalho escolher.
Dá trabalho ganhar.
Dá trabalho perder.
Dá trabalho pensar.
Dá trabalho perdoar.
Dá trabalho educar.
Dá trabalho acreditar.
Dá trabalho se aceitar.
Dá trabalho se perdoar.

Até fazer sexo dá trabalho. Quem não sai ofegante de uma relação sexual, não sabe o trabalho bom que está perdendo!

A vida é trabalho. Mas quanto eu ganho por isso?
Apenas o oxigênio.Para conseguir dinheiro, tem que arrumar outro trabalho.
Da vida você ganha sorrisos, abraços, amigos, beijos, sabores, cores e flores.

Como se não bastasse a vida ser trabalho, é preciso ter um trabalho. Dá trabalho descobrir qual trabalho me coloca no fluxo da vida e não me dê preguiça,  porque preguiça é medo. 
Escrever dá trabalho, e eu me canso. Mas não tenho preguiça de fazê -lo.Tenho necessidade, então parece que não é trabalho, mas é.

Tem coisas que só entendo quando escrevo.
Tenho medo. Ter medo dá trabalho, esse eu não gosto.Meu medo vem do que escrevo, dá trabalho me ler.Me reconhecer por escrito.

Depois de assimilar todos esses argumentos e entender que a vida é trabalho, adotei 3 lemas que carrego comigo.
1- Respeitar escolhas, reconhecer limites.
2- Devagar e sempre.
3- Um dia de cada vez.

Hoje estou aprendendo a trabalhar sem muito esforço,  aceitar o fluxo da vida, já que minha raiz não está mais tão danificada . Não há controle, tudo tem seu tempo. Lógico que meu trabalho maior é cuidar dela, da minha raiz, para que no tempo certo, eu árvore, dê frutos e assim os sonhos da minha vida se tornem mais possíveis. Leve, serena e mansa, a vida nunca será, não se iluda, porque a vida, é trabalho.