sábado, 27 de fevereiro de 2016

Palavras, carências e ofensas.

O que você espera ouvir? Quais as palavras usa para  falar? Como? De que forma? Pensa pra responder? Precisa responder? Não importa, esse trio já é triângulo de comportamento na minha opinião. Falar errado, sempre foi comigo, não tenho filtro. Falo na hora errada, de maneira e errada, e coisas que não precisam ser ditas.

 Tenho uma estante de rancor no meu coração, de palavras que ecoam na minha mente, e me fazem sentir como uma criança de quatro anos, ofendida. Bem como a figura de narciso, patas de águias, capaz de ferir, e pele de bebê, a qualquer toque, machuca.Egoísta? Não. Burra das emoções mesmo. Esse defeito veio nesse pacote de DNA, de voz com timbre diferente e potente. Na fúria, meus gritos são de potência equivalente a socar umas cem pessoas no estômago, e as todas derrubarem, mesmo que ali, esteja na minha frente, apenas um outro ser humano, igual a mim. É uma merda.

 Um perda de energia desnecessária. É o assunto recorrente da minha terapia há nove anos. Mais os dez anos que vivi dentro de uma igreja cristã, sendo polida diariamente pelo Espírito Santos. Esse problema já vendo sendo observado há muitos anos. Acho que melhorei. Um pouco. Mas nesse processo, descobri que escrever me ajuda. Então, decidi organizar e nomear meus sentimentos nesse post.

Pela milésima vez eu briguei com minha mãe. A gente só briga com quem gosta, e a gente sofre por quem ama. Ela é a relação de amor mais concreta que eu possuo. Não tenho irmãos paridos por ela, Nosso amor é único, e se depois de trinta e nove anos, eu ainda não aprendi a lidar com ela, não vai ser agora que vou desistir. Sou uma pessoa determinada. 

Só que dessa vez, eu entendi. Eu entendi várias coisas. 
Uma dela é que amor pode falar de várias formas.Quase todas.
Outra coisa foi o poder das palavras. Afinal, onde ele está?Elas não são só palavras?
Outra coisa: As palavras nunca serão só palavras. Nunca. Se palavras pudessem ser só palavras, elas não formariam a linguagem ,uma capacidade humana tão sofisticada, única e fundamental em toda especie terráquea. A linguagem está sofrendo uma alteração visível e brusca com o advento internet, e como será que eu estarei quando tiver a idade da minha mãe? Toda relação não começa com a  empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro? Sem empatia, não há relação efetivamente.

Palavras são flechas venenosas ou banho gelado no calor. Elas se apegam umas as outras num fluir contínuo, cheio de adjetivos e podem provocar sérios espasmos. Na alma. Elas sempre vem carregadas de um tom, esse tom as vezes fala mais que a própria palavra. Esse tom vem de alguma emoção: raiva, ira, carência, saudade, amor, plenitude, E tudo é energia. O tom que sai de uma boca, não necessariamente( quase nunca) chega no mesmo tom nas orelhas dos outros. Cada um, só entende o que quer, ou o que é capaz.



Nesse entremeio boca/ orelha é que tudo acontece. O mundo é uma brincadeira de telefone sem fio. Não importa a distância do que é emitido, e do que é recebido. Lá na ponta já virou outra coisa...e com o corretor ortográfico então...a probabilidade de ser compreendido perfeitamente é nula. Nunca será. Exatamente por isso que temos duas orelhas e uma boca só. Tem de ouvir no mínimo dua vezes pra ver se consegue entender. Jesus perguntou três vezes para Pedro, se ele o amava. Então, tudo que é dito no impulso, nunca deve ser considerado de primeira, senão a gente fica igual criança, ofendida, magoada, chateada e fim. Acabou a relação.

Se ninguém, pedir perdão,  e se ninguém conseguir perdoar, aí acabou. Bola pra frente. Outras relações virão. o tempo vai passar, a raiva vai sumir, o gostar vai ficar. Para se relacionar, é preciso ter coragem. 

Eu e minha mãe nos ofendemos muito. Nenhuma das duas sabe falar. Erramos em muitas coisas, mas a voz dela que mora em mim é um guia de sabedoria, aprendizado, amor, aconselhamento e risos, mais que as ofensas. Não deveria existir ofensa, mas há. A minha parte eu descobri. Carência. Eu sempre crio expectativa de ouvir certas coisas da minha mãe ( isso que é ser burra das emoções), desde pequena. Muitas vezes ela fala, minha mãe é muito inteligente. Quando ela não fala, eu fico frustrada, eu sempre espero, sempre. Então ela fala as bobagens que sempre falou, que eu já sei que não é verdade, mas eu fico ofendida. É sempre tudo bobagem. Ou verdades, que não precisam ser ditas dessa forma, meio na chantagem emocional, na implicância. Carência é uma merda.

No exercício de empatia, me pus no lugar dela. Ninguém pode dar o que não tem. Minha avó era um pouco amarga, muito sarcástica e não muito afetiva. Minha mãe era a mais velha das mulheres de dois casais de filhos. Cuidou da família para minha avó trabalhar, depois que meu avô morreu, e adolescente foi para um  internato para filhas e órfãs de militares. Uma guerreira, uma sobrevivente, que mesmo com tantos motivos para não aprender a amar, me amou do jeito dela, e eu sinto. Sou filha única, foi tudo pra mim, o amor, a culpa e as responsabilidades. Minha mãe, como todas as outras pessoas do universo, erram, querendo acertar. Ela é implicante. Sempre foi, com criança então...e as crianças adoram. Crianças gostam que impliquem com elas, porque assim, elas tem atenção, e tudo pode ser uma brincadeira. E o implicante é a mesma coisa, ele quer chamar atenção. Carência é uma merda.

Surreal, eu e minha mãe, brigamos por excesso de carência, das duas. Ela implica comigo, eu fico ofendida, infantilizada, uma mulher de trinta e nove anos,me transformo na Manuela de cinco anos e grito no agudo, mesmo sendo grave e falo um monte de outras coisas, que só as mães provocam na gente, que até podem ser verdade, mas não precisam ser ditas na gota d'água, na ira, na fúria, ou por mera implicância, vai dar ruim. Uma tem de ceder.

Essa altura da vida, eu já peço desculpas no máximo uma hora depois. Sei que fiz merda. A mestra mãe, também inteligente e partícipe dessa relação, já aprendeu a não responder nada. Supernanny ( Jojo) ficaria orgulhosa da minha mãe. Colocar uma criança no cantinho do pensamento é dar limites. Crianças reagem ofendidas e xingam suas mães e as odeiam por aquilo. Isso vai até a adolescência. No meu caso, até hoje. Mimada. Carente. Dependendo do que a criança fala, tem mãe que não aguenta, chora, mas a Supernanny diz para segurar a onda. Uma mulher, ao se tornar mãe, geralmente é adulta, e não consegue lidar com uma criança berrando e xingando por cinco minutos, enquanto está educando o filho é assustador para mim. As mães cedem. por amor, cedem.

Mas o cantinho tem uma finalização. depois do tempo, a mãe vai lá conversar com a criança. Ela se abaixa, fala em tom manso, na altura da criança e pergunta se a criança sabe o motivo de ter estado ali. A resposta da criança geralmente é: " estou aqui porque lhe desobedeci. Me desculpe". Só isso. Então a mãe abraça e beija o filho, e diz que ele esta desculpado. Só isso também. Assunto encerrado. Nada de ameaçar a criança, ela já foi desculpada, se ela fizer de novo, você avisa. Se você fizer isso ( bater no seu irmão) de novo, vai pro cantinho do pensamento. E repete, assim como nasce o sol, todos os dias, não desista. Essa é a técnica para não termos prisões no futuro. Estamos juntas.
Estava esperando minha mãe vir me tirar do cantinho, mas já sou adulta, e posso escrever esse post, ir até ela e conversar. No fim o amor vence.


Dar limites dói. Só agora sendo professora, posso concluir essas coisas. Sou partícipe da educação. Relação com mãe é inevitável, ou com a sua, ou dos alunos. Não tenho para onde correr. 
Preciso aprender. Estou aprendendo. Já escrevi isso tudo, tenho certeza que vou aprender comigo alguma coisa nesse post, ou já aprendi.

O tempo já passou, e eu já estou com saudades da minha mãe.

Escrevo pra mim, releio para não esquecer.












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