segunda-feira, 19 de junho de 2017

Verdade X Mentira - RING

Verdade X Mentira
 Trata-se de um jogo teatral. Ao ler a proposta do esquete nasceu assim.Pensei, repensei. Li e reli.  Me passam pela cabeça várias transições, e circunstâncias que posso sugerir, em cada frase..., dois executivos num bar, tomando um uísque, ou duas mulheres numa sala de ioga,... pode ser engraçado, pode  ser dramático ou tenso. Se eu definisse alguma delas, ele deixaria  de ser um texto contemporâneo, e permissível de tantas  e variadas possibilidades. Por isso, tomei a coragem de mandá-lo assim. Presunção me auto intitular escritora contemporânea, nada disso. Ë uma simples tentativa de justificar um texto quase infantil.

  X: Mentira!
  W: Não é mentira
  X: É mentira, eu sei que é.
  W: Tô te falando, dessa vez é serio.
  X: Se for mentira, que eu faço?
  W: Eu que vou saber? Eu sei que é verdade!
  X: Então me prova!
  W: Provo
  X: Então prova, rápido que eu tô com pressa!
  W: Tá com pressa de que?De ser mentira?
  X: Não, não estou mais.  Se for verdade, então eu não tenho com o que me preocupar.
  W: É verdade!
  X: Então é verdade!
  W: E você não vai fazer nada?
  X: Eu?Fazer o que?
  W: Alguma coisa!   
  X: A nem!Quer saber de uma verdade?Cansei!   
  W: Ah, mentira!
  X: Isso!Mentira!Eu cansei!Já que é verdade, eu também vou parar de mentir!  Vou falar a verdade!
  W: Mentira!Você não vai fazer isso!Eu não vou deixar!
  X: Você não vai deixar?Por quê?
  W: Por favor, não faz isso!  
  X: Não faço o que?Falar a verdade?
  W: Não faz nada!
  X: Mas você acabou de me dizer pra fazer alguma coisa!  Eu não ia fazer nada!
  W: Então não faz nada!
  X: Qual o seu problema com a verdade?Ela só serve pra mim?
  W: Qual o seu problema com a mentira?Não te serve mais?
  X: Nunca serviu.
  W: Mentira!
  X: Verdade!(longa pausa) É mentira não é?
  W: O que?
  X: O Que você veio me contar
  W: É verdade
  X: É mentira. Fala olhando nos meus olhos
  W: É verdade, to te falando!
  X: Olha pra mim!   
  W: É mentira.
  X: Eu sabia
  W: Você sabia?
  X: Sabia.
  W: Quem te falou?
  X: Ninguém.   
  W: Então como você sabia?
  X: Você quer saber a verdade?
  W: Quero.
  X: Você não sabe mentir!
  W: Verdade?
  X: Verdade.
  W: E agora que é verdade, o que eu faço?
  X: Eu que vou saber?Eu sei que é verdade!
  W: Então prova.
  X: Provo
  W: Então prova, rápido que eu to com pressa!
  X: Ta com pressa de que?De ser mentira?
  W: Não, não estou mais.  Se for verdade, então eu não tenho com o que me preocupar.
  X: É verdade
  W: Então é verdade!
  X: E você não vai fazer nada?   
  W: Eu?Fazer o que?
  X: Alguma coisa!
  W: A nem, quer saber de uma verdade?Cansei!
  X: Ah, mentira.
  W: Isso!Mentira!Eu cansei!Já que é verdade, eu também vou parar de mentir!  Vou falar a verdade!
  X: Mentira!Você não vai fazer isso!Eu não vou deixar!
  W: Você não vai deixar?Por quê?
  X: Por favor, não faz isso!
  W: Não faço o que?Falar a verdade?
  X: Não faz nada!   
  W: Mas você acabou de me dizer pra fazer alguma coisa! Eu não ia fazer nada!
  X: Então, não faz nada!
  W: Qual o seu problema com a verdade?Ela só serve pra mim?
  X: Qual o seu problema com a mentira?Não te serve mais?
  W: Nunca serviu.
  X: Mentira!
  W: Verdade! 
  Fim?



quinta-feira, 15 de junho de 2017

O luto do Jogo do Bicho.

Morre assassinado na madrugada do dia 14 de junho no Rio de Janeiro, Hayrton Escafura, filho de José Caruzzo Escafura, Seu Zé, ou Piruinha, como ele não gosta de ser chamado, mas é mais conhecido.
Como moradora da Abolição, criada em Pilares e arredores, posso com muita coragem falar desse homem.
Eu o conheci quando criança, minha mãe era compositora de samba enredo da Caprichosos de Pilares, e me levou muitas vezes lá em escolhas de sambas e festivais de chopps com canecas de porcelanas. Década de 80, século passado. Em um dos camarotes fui apresentada ao seu Zé, ele com seus cabelos brancos, baixinho, muito cheiroso e sorridente, sempre gostou de uma mulher bonita. Minha mãe além de bonita, era um acontecimento. " Chegou a Elka Maravilha de Pilares " - ele disse. Sim, Elka. Ele fala algumas palavras errado. Afinal, para quem não sabe, Giovanni Brota, personagem muito famoso de Senhora do Destino, foi inspirado no Seu Zé. Minha mãe tinha um Dodge Charge RT branco, e andava mais montada que a própria Elke, aliás, ainda anda. Seu batom vermelho, e os cabelos loiríssimos, e muito cheio, além dos chapéus e adereços, faziam a sua entrada triunfal em todos os lugares que íamos. Nesse dia, ele me pegou no colo, me disse que eu era linda, e perguntou o que eu queria comer. Tudo. Eu comia tudo para ficar acordada pelas madrugadas com minha mãe. Sentadinha no camarote, via minha mãe rindo e conversando com ele. Muitas vezes. Não só na Caprichosos, mas também no Sambola. Uma casa com varanda que tinha músicas ao vivo e onde passava as madrugadas rodeado de mulheres bonitas e músicos da área. Ele era e ainda é o Prefeito da Abolição. Contraventor do jogo do bicho, aprendeu com o próprio Castor de Andrade, o esquema cultural de se fazer uma fezinha. Cada esquina da zona norte tem um apontador, que faz o seu joguinho, e nos postes, diariamente, são colados os resultados. Você pode chegar na banca com seu papelzinho, que vai receber o seu dinheiro. Sem nenhuma dúvida. O jogo do bicho paga. O jogo do bicho emprega gente pra caramba, o jogo do bicho paga décimo terceiro, o jogo do bicho dá pensão às viúvas de seus falecidos empregados. O jogo do bicho sempre pagou seus impostos, por debaixo dos panos aos policiais corruptos para que continuasse a acontecer. Um esquema bem honesto, pelo que parece, mas não legalizado.
O jogo do bicho hoje está separado por áreas. Posso falar da minha. Por alguns anos, adesivos nos carros do Haras Escafura, era sinônimo de status. Só tinha quem era amigo do seu Zé, e seu Zé dava dinheiro para todo mundo. Sempre deu. Muito antes do Mr. Catra ficar famoso por ter muitos filhos, seu Zé já tinha 26. Todos recebendo suas pensões, estudando em escolas boas, e suas respectivas mães com suas contas em dia. Seu Zé é uma lenda. Seus filhos foram seguindo cada um o seu caminho. Estudaram, se formaram, trabalham em suas áreas, e outros seguiram os passos do pai. Empresário do ramo de animais, é assim que ele se define. Ele é o dono da banca. Adora jogar, mulher bonita, samba e seresta. Tem dinheiro para morar onde quiser no Rio de Janeiro, ou Nova Iorque, mas ele não sai daqui, é bairrista.  Se ele manda prender e manda soltar, eu não sei. Sei que ele ficou preso por 10 anos, e assim como o Pepe Mujica, aprendeu muito sobre a vida quando estava por lá. Ele até fala errado, mas é de uma sabedoria muito lúcida. Minha intimidade com seu Zé se dá pela amizade que ele manteve com minha mãe por todos esses anos. Lógico que ele também quis ter um filho com ela, mas minha mãe era muito apaixonada pelo meu pai, não tinha coragem, porque oportunidade não faltou.A acabou sendo a confidente dele sobre as outras muitas mulheres que o rodeavam.Mas ela era cantora, frequentava o Sambola, e vivia com ele. Ela conhecia algumas, era amiga delas, e dava conselhos. Tema algumas que são amigas dela até hoje. Com filha(o) dele, mas amigas da minha diva mãe.
Por alguns anos , não haviam assaltos na Abolição e arredores. Não havia tráfico no asfalto e muito menos milícia. Milícia não tem até hoje, agora assaltos tem. Seu Zé já tem mais de oitenta anos, e os bandidos novos não o conhecem. Seus carros são blindados, pois já sofreu algumas tentativas de assalto. Mas quem poderá matar o pato dos ovos de ouro? Acessível, sorridente e generoso, esse homem é muito mais ético que muitos políticos por aí. Ele possui uma legião de fãs e agregados. Muita gente recebe um trocadinho dos eu Zé para ajudar nas despesas,e ele dava. Hoje não dá mais. A crise também chegou no jogo do bicho. O funcionários mais velhos morrem, é preciso treinar novos e honestos parceiros. Sem contar que a minha geração não sabe jogar no bicho, eu não sei, nunca consegui aprender. Eu lamento, é um patrimônio cultural da história do nosso Rio de Janeiro, e parece que vai acabar em poucos anos.

Seu Zé já está cansado, e hoje enterra um dos seus filhos preferidos, sem nenhuma discrição sobre a sua preferência. O filho que deu mais trabalho, o mais abusado, o mais desobediente. Não foi por falta de aviso, para não se envolver com certas pessoas, o velho sábio sabia, mas o jovem empresário das máquinas parecia não ter limites. Foi preso, e como seu Zé sofreu ao ver seu filho com hepatite na prisão. Recentemente, na seresta que ele frequentava aqui na Abolição, onde eu pude ir muitas vezes com minha mãe, seus olhos estavam distantes, e quando conversava, vinha a lamúria e preocupação com Hayrton. Os dois últimos anos foram penosos para ele. Seu Zé não bebe, não usa drogas. Manda as garotas novas irem para casa cedo, dá conselhos como de pai, e nem de longe parece um bandido. Talvez a sua legião de fãs e agregados sejam assassinos e vingadores do Gangster Suburbano, porque ele, nem tem telefone celular, e também nunca o vi armado. Sua maior arma sempre foi o bom papo e uma lábia de conseguir o que quer. Foi mediador depois de alguns assassinatos de outras regiões do jogo do bicho, por ser o mais velho, o que sabe o certo a se fazer. Enterrou uns cinco filhos, mas esse, fez a Abolição inteira ficar de luto. Foi brutal. Sabe-se lá o que Hayrton fez ao sair da cadeia, e quantos esporros não levou desse pai. Porque até eu já tomei vários esporros dele, sem ter nenhum vínculo parentesco, mas eu sempre soube que era cuidado de pai, já que o meu não está mais aqui, e ele não deixou de ser amigo da minha mãe. Conselhos sábios, direções precisas, lucidez e sabedoria. Tudo que um bandido não possui. Um contraventor talvez, um incompreedido da lei, eu definiria.
Muita gente fala do que não sabe, muita gente julga sem conhecer, muita gente acha que o jogo do bicho está ligado à compra de armas, ao tráfico, a milícia, ou assaltos. Nada disso, pelo menos aqui na Abolição não. Seu Zé gosta mesmo é do jogo, e só. Roubar? Ele não precisa, ele é o dono da banca. Ser corrupto? Defina corrupto...Sérgio Cabral? A corrupção não vem de casa? Posso dizer que Seu Zé já até pagou o IPVA do meu carro atrasado, ou uma mensalidade da minha faculdade para que eu andasse certa. Ter adesivo no carro, se tornou mais bobeira que status. Polícia que para carro com adesivo do Haras não quer mais saber de nada, ninguém é liberado se não tiver seus documentos em dia, nem seu Zé, que é muito respeitado pelo simples fato de ser O Gangster Suburbano mais generoso que já se viu. Um dia ele deu de gorjeta para o frentista do posto, cinquenta reais. Não acreditei! Ele virou pra mim e disse: " Minha filha, você come uma nota de cinquenta reais? Não né? Dinheiro só serve pra isso, para que você saiba compartilhar com quem precisa e trabalha. Tenho certeza que dá próxima vez que vier aqui, esse moço vai me tratar melhor que todos os outros clientes, e eu gosto disso, isso me faz bem!".
Pronto, levei pra vida.
Esse é um dos poucos ensinamentos sábios que tive com seu Zé.
A partir de hoje , não sei o que vai acontecer. Essa morte pode o ter deixado muito triste, mas esse homem é uma fortaleza, e esse luto, essa tragédia suburbana, só vai fazer dele mais respeitado e mais sábio. Isso eu sei, como todas as coisas que escrevi e que muita gente não sabe, só especula.

Meus pêsames Seu Zé.



terça-feira, 13 de junho de 2017

depoisarte: Fui demitida...

depoisarte: Fui demitida...: Hoje, ao chegar na escola, fui dispensada. Nem um mês de trabalho, me demitiram. Substitui uma professora de Artes que estava coma filha doe...

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Mó viagem, mas essa história não é minha.

Eu não me lembro o ano, mas lembro do país e de todo o resto. As perguntas permanecem, pelo encanto e mistério do encontro. Ela era uma velhinha, com um rosto enrugadinho, cabelo branquinho, tipo vovó. De avental. Feliz, essa senhora morava na Itália. Viajando de carro, depois de quilômetros e quilômetros de nada de um lado e nada do outro da estrada, havia ali apenas uma casa, um oásis de amor com imagem familiar do fantástico mundo dos mistérios. " Dona Benta saiu dos livros de Monteiro Lobato lá no Brasil, e mora agora numa cidade fantasma aqui na Itália?" - Pensei. E o mais estranho: ela era feliz, morando sozinha e com o " Grazie a Dio". Gostava de receber apenas seus clientes visitantes. "Mas a senhora aqui sozinha? Não e um mercado, um comércio aqui..." Eu no inglês, ela no italiano e a gente se entendeu completamente. Encontros misteriosos, traduzidos pela vontade genuína de troca. Trocamos. Comprei um docinho lá de alguma coisa, que não me lembro, e ela me levou até seu quintal nos fundos da casa e me mostrou sua horta. Pepinos, legumes, algumas frutas de árvores baixas. Tudo de um tamanho exato do que pode existir no meio do caminho. Ela sorria e eu me despedi com o fruto desse trabalho solitário e íntimo com a natureza. Simplicidade e vida Achei uma pessoa no hiato da viagem.Uma nona que vive sozinha com sua horta e vende o fruto do seu trabalho a quem passa pelo caminho, onde não tem nada. E as pessoas ainda em perguntam, por que eu amo viajar? Porque a vida sempre me surpreende. Sou a louca do snap mesmo.

História contada por Binha. Registrei.

Mó viagem, mas essa história não é minha.

Eu não me lembro o ano, mas lembro do país e de todo o resto. As perguntas permanecem, pelo encanto e mistério do encontro. Ela era uma velhinha, com um rosto enrugadinho, cabelo branquinho, tipo vovó. De avental. Feliz, essa senhora morava na Itália. Viajando de carro, depois de quilômetros e quilômetros de nada de um lado e nada do outro da estrada, havia ali apenas uma casa, um oásis de amor com imagem familiar do fantástico mundo dos mistérios. " Dona Benta saiu dos livros de Monteiro Lobato lá no Brasil, e mora agora numa cidade fantasma aqui na Itália?" - Pensei. E o mais estranho: ela era feliz, morando sozinha e com o " Grazie a Dio". Gostava de receber apenas seus clientes visitantes. "Mas a senhora aqui sozinha? Não e um mercado, um comércio aqui..." Eu no inglês, ela no italiano e a gente se entendeu completamente. Encontros misteriosos, traduzidos pela vontade genuína de troca. Trocamos. Comprei um docinho lá de alguma coisa, que não me lembro, e ela me levou até seu quintal nos fundos da casa e me mostrou sua horta. Pepinos, legumes, algumas frutas de árvores baixas. Tudo de um tamanho exato do que pode existir no meio do caminho. Ela sorria e eu me despedi com o fruto desse trabalho solitário e íntimo com a natureza. Simplicidade e vida Achei uma pessoa no hiato da viagem.Uma nona que vive sozinha com sua horta e vende o fruto do seu trabalho a quem passa pelo caminho, onde não tem nada. E as pessoas ainda em perguntam, por que eu amo viajar? Porque a vida sempre me surpreende. Sou a louca do snap mesmo.

História contada por Binha. Registrei.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

A lição do pertence ou não pertence.

Intimidade é uma merda, só gera falta de respeito e filho. Eu tinha um tio que sempre falava que nos casamentos era necessário uma certa dose de cerimônia no conviver. Nada de fazer número dois de porta aberta, ou enquanto o parceiro escova os dentes." Perde o encanto" dizia ele. Mas isso foi no século passado. Tudo tem mudado tão rápido, tudo tem se desmanchado em deletes, blocks, unfollows e likes, que eu me pergunto, o que é o encanto? Tem como perder algo que nem sei mais como é?

Nas minhas memórias de adolescente, eu idealizava tudo, um casamento perfeito, um emprego dos sonhos, e uma família divertida, amorosa e unida. Ficou na timeline de 1987, pena que meu Facebook não pode mostrar. Essa timeline se encontra paralela a minha vida real, tangente nos meus conhecimentos acadêmicos, perpendicular a outra timeline dos meus sonhos, também paralela a timeline dos meus projetos já programados, com suas devidas metas, modificadas ao longo dos anos.Uma rasurada bem colorida. Não dá pra ter uma timeline, é preciso se conhecer 360°, visto de dentro e acrescentado do de fora. Nada que um computador ainda não tenha conseguido mostrar. Somos complexos em todos os níveis. Quer dizer, sou um gráfico tridimensional energético, colorido e múltiplo. No que me segurar? Algum outro conjunto é capaz de fazer uma interseção nesse meu campo, e ter alguns dos seus elementos que se tornem pertencentes ao meu conjunto e vice versa? Seria esse, o vínculo. Impermanente, mas pertence. 

Apenas pertence. Pode mudar a qualquer hora, a vida é mutante. As relações mudaram. Somos analfabetos matemáticos na lógica das relações. Sim, elas tem lógicas e me parecem exatas. Fale o certo da forma errada que a equação é zero. Nenhum dos dois ganham. Não preste atenção no enunciado da questão, e então erre um sinal, a equação dará errado novamente. São duas orelhas, são dois olhos, se não usa-los na devida proporção que a natureza lhe deu em relação a boca, a equação vai dar errada de novo. Não parece óbvio? Mas porque detestamos tanto essa matemática? Não exercitamos, não praticamos? Desde criança vem a fama maldita de que matemática é difícil. Difícil é escalar o Everest, matemática é mole. Enquanto a gente não abrir os olhos para essas equações relacionais, tem gente ganhando maratona de matemática, ficando rico e se divertindo horrores, porque já sabem como funciona o jogo. Zero vezes zero é zero minha gente, sozinho ninguém vive, sozinho ninguém joga. Tem de ter o número um, pra que o sistema binário se desmembre em todas as coisas. 

Dois é melhor que um, já dizia Salomão, o homem mais sábio que já existiu. Esta no livro de Eclesiastes, na bíblia. E agora? Como juntar os conjuntos tridimensionais múltiplos que somos, e desenvolver a equação? Ou melhor, a relação? Tem espaço? Quantas camadas são visíveis, quais tem senha, quais podem ser invadidas, compartilhadas, roubadas, hackeadas, printadas e editadas? Está tudo no painel de controle? Não. Definitivamente não. As camadas estão vulneráveis, não damos limites, os espaços estão mal distribuídos e tem muito lixo. Muito lixo emocional. Muito medo de intimidade.Calma. Você ainda vai se desesperar. Por mais que você não queira abrir a camada do seu coração para o outro, não saiba fazer isso, ou não possa...existem outros riscos de ter o seu miocárdio afetado. 

Podemos começar a faxina, e jogar os rascunhos fora. Os ideais romantizados, que só nos prendem e nunca nos encorajam a agir. No mundo dos sonhos tudo é perfeito e ninguém tem defeito, por isso gostamos de ficar lá. Nada de conflitos. Eu adoro. O medo me ajuda, ele me convence a idealizar, achar mesmo que em outra timeline qualquer, haverá uma tabela já preparada para equalizar as demais e enfim, ter uma vida ( timeline) relativamente perfeita em qualquer outra dimensão.Eu não estou enlouquecendo. Estamos em 2016, nada será como antes. A faxina é necessária.

Agora de fora para dentro não temos como limpar tudo. Não temos como medir as entradas e saídas numa camada chamada pele. Ela tem sua membrana semi permeável, entra o que interessa. Entra, toca, troca, modifica. Perdemos. Não há cura, há controle. Controle de presença. O quanto estamos presentes para perceber imediatamente o que nos acontece? Quase nunca. Por isso essa bagunça de gráfico né?

Mas afinal, e o vínculo, e a tal "cerimônia"? Existem? Sim. Ainda sim. Me parecem escassos e dão muito mais trabalho que antes construir esse tipo de equação/relação. Todos os combinados condicionados pela nossa cultura estão se desfazendo, e precisam ser refeitos, mas ninguém gosta dessa matemática. Como disse um amigo: " Matemática é negócio que não dá, não é negocio de número, pra que colocar as letrinhas no meio da parada? " Outra: " Matemática é uma coisa muito foda, ela fode com a vida da gente!" 

Dificuldades reais na matemática. Mentiras arraigadas. Medos paralisantes. Mas é apenas matemática. É subjetiva, mas é como a vida. Tem coisas que são obvias, e tem coisas que precisam ser muito exercitadas para serem compreendidas. A repetição do nascer do sol é a lição.Diariamente. O Trabalho é diário, não basta construir, executar, e acertar uma equação, é preciso manter o pertencimento. Manter se em equilibrio em meio a tantos conjuntos. 

Essa lição é pra mim, eu estou aprendendo isso. Escrevo pra mim, compartilho e releio para não esquecer.
Estou apenas vinculando palavras em mais uma timeline.


quarta-feira, 15 de junho de 2016

A lição da ajuda. Desde 2011.

Em um dos momentos mais importantes da minha vida, eu comecei a sentir umas dores na lombar, que se extendiam pela perna direita e me levaram a cinco ortopedistas que variaram de diagnóstico e tratamentos em várias escalas. A primeira destruiu meus sonhos na frieza costumeira de um ortopedista/açougueiro que trabalha em emergências. "Você nunca mais vai correr na sua vida!" Foi a frase que acabou comigo.Eu finalmente conseguia correr 7 km na praia depois de ter conquistado o percurso com caminhadas e trote por meses, não completaria um ano de corrida. A segunda médica foi um pouco mais calorosa, me mandou pra fisioterapia,RPG.Fiz tudo, e junto, me tratei por um ano com acumpultura, osteopatia, remédios, injeção, e sem muita melhora.Na verdade eu só piorava, a dor ainda abalava a minha fé, eu não acreditava na vida, e fiquei em depressão profunda.
Eu já fazia terapia duas vezes na semana tinha dois anos.Ela me indicou um psiquiatra,mas eu não consegui ir nele. Até que um desses amigos anjos que sempre estiveram na nossa vida, geralmente vem da época de criança, que lê a sua alma e mesmo anos sem ter noticias, quando aparecem trazem a luz. Ele me indicou uma especie de terapeuta corporal e disse com muita convicção:" Ela vai mudar a sua vida! " . Eu estava com muita dor, exausta e deprimida pra esboçar alguma reação. Ele retrucou - "Nossa, que desânimo!". Eu apenas  respirei.
Tem dois anos que me trato com ela e sim, ela mudou a minha vida.
De cara ela me mandou pra uma outra médica que me receitou um antidepressivo, florais, homeopatia.
Mais do que tratar a minha dor, eu precisava sair dela, da crise, da consequência final, e buscar a verdadeira causa. Minha alma estava em frangalhos, eu estava sozinha, eu não queria amigos, eu não sabia mais como me relacionar, tudo me machucava, tudo doía.
Nosso encontro era uma vez por semana, e deitada no chão chorando como um feto, falando das minhas dores, ela cuidava da minha respiração e me ouvia. Desobstruindo meus nódulos de energia acumulados durante meus 30 anos, ela me acolheu como mãe. Era uma terapia com afeto.
A primeira grande licão que agora eu aprendia era sobre ajuda.
Foi em posição fetal, chorando e amargurando a vida que ouvi ela dizer:
"Ajuda só se dá quando pedem. Pediram? Você para, veja se você pode, se puder então ajude, senão não, isso é limite!"
Essa é lição mais fundamental do meu tratamento e agora das minhas relações.
Cresci acreditando que ajuda tem que dá e ponto. Jesus e toda sua filosofia me foram impostas pela cultura católica do país, meus pais sempre ajudaram todo mundo, e eu nunca questionei.
Ajudar alguém é bom demais. A gente se sente útil, importante, e o melhor de tudo: amado.
Eu ajudava o mundo inteiro, mas nunca me ajudei. Eu dava ajuda sem ninguém me pedir, e gastava o meu tempo, minha energia, minha consideração, sempre primeiro pros outros que por  mim mesma. E estou falando de pessoas que eu amo, minha mãe, meus familiares e meus amigos. Eu dava minha alegria, minha fé, meu amor, meu dinheiro,minha atenção, meu coração,minha casa, meu carro, minha inteligência,minha força,minha criatividade, meus objetos pessoais. Eu precisava ser amada, querida, útil, cristã, desapegada, generosa, e eu era. Mas eu cobrava. Eu sempre achei que merecia o tanto quanto eu dei. E merecia. Mas ninguém dava. Ninguém nunca dará. Essa é a verdade.Não há como medir, não tem como fazer uma tabela. Sempre será injusto. A não ser que...a pessoa peça ajuda a você, e você realmente possa e queira ajudar. A ajuda se torna um favor livre de cobranças. É um ato consciente e valorizado por quem pediu,pediu porque realmente estava precisando e nunca poderá jogar na cara um "você fez porque quis, eu não pedi, então não venha me cobrar o mesmo!".A ajuda é do tamanho certo. Não há abuso, não há mágoas, e quem dá a ajuda, se sente assim, útil e importante.  Esse é o beabá da troca. O se sentir amado é em outro lugar.
Nunca pensei que minha dor na lombar seria a consequência de carregar o mundo inteiro nas costas sem saber dar limites com medo de não ser amada, mas era.