sábado, 1 de dezembro de 2012

Quando as mães adoecem.


O quarto era azul, e tinha um cheiro engraçado de chocolate. Era dos aparelhos que faziam o trabalho de oxigenar o corpo deitado naquela cama de hospital.  Não fui lá muitas vezes, eu tinha uns 12 ou 13 anos. Não entendia o nome complicado da doença e muito menos gostava de vê-la  atrofiando aos poucos sem poder falar. Essa era minha avó materna, que ficou doente e por oito ou nove meses  na minha memória, cheirou a chocolate.
Nessa época perdi a minha mãe pra minha avó.  Ela era tão dedicada, que só andava de branco pelos hospitais e era até chamada de doutora por alguns. Uma pessoa de branco em um hospital pode entrar onde quiser.  Enquanto minha avó esteve internada, minha  mãe estava lá. Não me lembro de ter visto nenhum dos outros filhos da minha avó tão dedicados como minha mãe, e ela tinha mais três.  A doença da minha avó não tinha cura, e quando ela morreu, foi a primeira vez que meu pai dormiu na minha casa. Minha mãe não saiu do hospital. No velório ela voltou a fumar. Nunca entendi isso. Por que não antes?
Essa não foi a primeira e nem ultima vez que perdi a minha mãe. Na verdade acho que nunca a tive. Não como eu queria. Minha mãe sempre foi linda, engraçada e exuberante! Pros outros. Comigo ela sempre se permitiu ser crítica, deprimida e feia. Nas vezes que ela estava na fase boa de sua bipolaridade, ela me ensinou muita coisa de arte, música e literatura. Não posso negar que foi ela quem me ensinou a escrever uma boa redação!Me levou a lugares importantes, como ao Teatro Municipal, me ensinou a gostar de música clássica. Sempre admirei minha mãe que é uma artista nata. Ela sabia desenhar, pintar, costurar, cozinhar, escrevia música, cantava, maquiava,  desfilava em escola de samba, e também puxava o samba no gogó. Mas quando estava na fase deprimida, tudo o que eu fazia era péssimo, e ela vivia dormindo e gritando comigo por que eu fazia barulho. Não sabia mais o que fazer pra minha ídola me dar atenção. No mínimo te garanto que fui boa aluna, nunca repeti de ano e nem fiquei em recuperação. Terminei meus estudos com 16 anos. Um fenômeno de responsabilidade. Já era vegetariana desde os 13 e ser a melhor em tudo era a única maneira da minha mãe me dar atenção.  Acho que no final das contas, eu bati palma pra maluco dançar, porque nem assim. No fundo não fazia mais que minha obrigação, ela dizia. Por isso acho que nunca a tive, só no útero mesmo que fomos completas.
Arrastei pra análise essa minha delicada relação. Inevitável. A culpa é sempre da mãe. Eu sei, sempre fui mãe da minha mãe. A gente erra querendo acertar, mas eles, os filhos nunca aprendem. Então a culpa é minha.  Que por anos tentei ensinar a minha mãe a ser a minha mãe, mas não consegui. Desisti. Quero meu lugar de filha já. Mas agora? Como eu faço isso aos 35 anos? Começando tudo de novo. Papéis invertidos geram problemas. O processo vai demorar.
O quarto é azul, mas não tem cheiro de chocolate. Dessa vez é minha mãe que está sentada diante de três médicos, com um monte de exames na mão, e um deles pergunta:  “ A senhora sabe do que se trata essa doença?”-  minha mãe como uma criança fingiu que não sabia, ou deu a entender que sabia mas não queria falar o nome, fiquei observando calada.  Ele insistiu na pergunta até ouvir a palavra sair da boca da própria. – “ Câncer.” Ela enfim respondeu.
Sai do hospital com ela segura que vai dar tudo certo na cirurgia e que Deus estava no controle, e está. Não sei por que as pessoas tem câncer, não sei como se curam. Creio que Deus cura, que o amor cura, que o tempo cura. Sei também que quando as mães adoecem, as filhas mudam. Eu sei, eu já vi isso antes.

Um comentário:

Flavia disse...

Manu fiquei muito triste com essa noticia... seja forte minha prima!! Deus ta no controle!! Estamos torcendo e crendo por um final feliz.... Bjoss