terça-feira, 23 de abril de 2013

na sala da humildade

Aprender é um dom. Pessoas curiosas tem um brilho nos olhos pelo que é novo, e pelo que me lembro o ser humano foi criado por Deus pra se encantar com a vida e toda sua tranformação constante. Quem não alimenta esse caminho, pode ter uma velhice sem graça, sem histórias para contar. Ver uma flor brotar, um por do sol, golfinhos a nadar, tudo em movimento. Sempre. Aprender é o verbo. 
    Pela primeira vez no Rio de Janeiro, cidade dos estúdios de TV, é aberta uma escola para atores onde se ensina a fazer televisão,com um estúdio "padrão Globo" e cameras exatamente como se faz lá na novela. Escola de Atores Wolf Maya. Com 10 anos de história em São Paulo, finalmente agora em terras cariocas.Deus me permitiu ser atriz, depois de ser outra coisa. E por sete anos tenho me dedicado ao teatro. O Rio de Janeiro realmente carecia desesperadamente por uma estrutura como essa. Somos carentes de salas de teatro. Somos carentes de tudo.Temos cerca de seiscentos atores em média sendo formados a cada semestre em todas as escolas e tem gente muito boa chegando no mercado toda hora, e um mercado que é tão restrito. Tem de brilhar pra sobressair.Tem de bancar!
   Eu soube da escola pelo próprio Wolf, cerca de uns nove meses atrás em um sarau. Ele me falou baixinho no ouvido, como um segredo, que estava trazendo a escola pro Rio, e com o brilho nos olhos de uma criança que vai brincar em um brinquedo novo, no jardim de casa.
   Foram seiscentos inscritos para cento e oitenta vagas. Meu teste foi em um sábado, minha inscrição numero 502. Meu Deus, quanta gente já não passou aqui! Olhei pra mim mesma e fui brincar. Não ia adiantar ficar nervosa, ou esperar algo de um teste tão importante. Atuar é levar a brincadeira a sério profissionalmente. Se eu não me divertir, a platéia não se diverte. Escolhi fazer um texto meu, da Bruma, uma mulher tão ansiosa, mas tão ansiosa, que ela marcou o dia da morte e se matou antes! Nervosa eu estava, mas foi ótimo, me diverti, e passei!
   Agora que vem a melhor parte. Minha sala tem trinta alunos,a maioria profissional com DRT. Tem gente que estudou comigo na faculdade,Patricia Elizardo(Paty) e tem amadores.Também estou fazendo uma pós graduação em licenciatura, porque passei em um concurso pro municipio e preciso dessa licenciatura pra dar aula. Estou em sala de aula, desde que me entendo por gente!Nunca parei de estudar. De alguma forma, fiquei incomodada em fazer aulas de base teatral, enquanto os estúdios, e aulas de vídeo que fazem os meus olhos brilharem! As aulas começaram não tem um mês, e eu me machuquei no estacionamento do Freeway. Atrasada, subi com meu carro em um meio fio bobo, mas quando ele desceu, eu ouvi minha coluna gritar: crec!Dez dia torta de cama. Muito antiinflamatório, bolsa de agua quente, repouso e um questionamento: Será que estou me sabotando? Sim. Por mais que Sheakespeare em Hamlet nos dê a forte frase, que " Estar pronto é tudo". Nunca estamos, de fato, prontos.O ator então vive a arte de se preparar. Ser ator é saber esperar sua hora, pra se jogar no abismo! Isso não é absolutamente insano? Mas nós não sabemos viver sem. Torta, e com todos esse pensamentos, aceitei a impaciência do meu corpo e depois de perder uma semana de aula, retornei. Ainda com um ranso,de ter de viver esse processo todo de novo, encontrei Paty e Turazzi ( Rodrigo) no café do lado da escola e os dois fizeram faculdade comigo, e agora casados fazem a escola também.Ele a tarde, ela na minha sala. Lá do fundo do olhos azuis do Turazzi, vieram as sábias palavras: " Quando eu venho pra cá Manuela, eu tenho de abrir o meu coração. Só assim." Os dois também se incomodaram de alguma forma como eu.Ufa,ainda estou torta, mas já não estou mais sozinha na minha crise!O teatro nos aproxima de pessoas como nós! Um salve a Dionisio!E posso dizer que eles são,dois dos melhores atores que vi na época da faculdade!Decidi que também ia abrir meu coração. Precisava. As aulas de improviso são uma delicia sim. Depois que entendi o processo do jogo de cena, comecei a me divertir mais.No ínicio da faculdade, eu não conseguia.Tinha vergonha de me expor, de errar, de ser rídicula.Não vejo isso em ninguém da minha sala hoje. Todos se jogam e erram, e eu me divirto horrores.Não só abri meu coração, como me permiti sair com eles ontem pra tomar chopps. Nem foi todo mundo, mas a nossa conversa foi bem pertinente. Como estar em sala de aula com amadores, nós sendo profissionais?Os risos fora de hora? A cena boa, que se perde por uma insegurança? Rir do erro do colega pode fazer ele achar que está bom e levar isso pra vida? Nós podemos de alguma forma, neutralizar essas bobagens?Como? GENEROSIDADE. Essa é a palavra.Acolher com amor todas essas formas de se expressar, que nossos colegas apresentam. Como disse também outra sabia Andreia Segatti. Victor também apontou a humildade. Palavra que a gente precisa também. Pedro Jones, o mais didático foi que apontou a possibilidade de neutralizarmos, e sermos o exemplo, do que todos fomos lá aprender. O nosso ofício, o nosso sacerdócio, o nosso chamado. É a grande chance de praticar a generosidade e a paciência. Eu comigo mesma, com meu corpo, com meus medos, com meus colegas, com o meu tempo, com as minhas questões,com meus sonhos. Esse vai ser pra sempre um bom lugar pra se estar: na sala da humildade, de coração aberto.Aos poucos a coluna vai voltando pro lugar.
       
 

Nenhum comentário: